April 17th, 2013

rosas

taprobana, ida e volta. 6/12

26.3.2013 (terça-feira)
O rochedo de Sigiriya é um maciço rochoso com cerca de 200 metros de altura, em forma de mesa ou de dosro de leão deitado, com as encostas cortadas a pique, que faz lembrar vagamente Ayers Rock, na Australia, ou a Devils Tower do filme Close Encounters. Na mesa do rochedo há ruínas de uma fortaleza e de um palácio real. É a maior atracção turistica do Sri Lanka, não só por causa dos sítios arqueológicos, mas também pelo desafio da subida: mil e tal degraus cortados na pedra, sob um sol escaldante. Conclusão: juntei-me a um casal de pessoas mais idosas que faziam parte do grupo e ficámos os três cá em baixo, a conversar e a beber coca-colas fresquinhas, durante as três horas que os outros demoraram a ir lá acima e voltar!

Depois do almoço (num restaurante curiosamente chamado Aralyia), fomos visitar Polonnaruwa, que disputa com Anuradhapura o primado pelas ruínas históricas mais importantes do Sri Lanka, embora esta cidade Polonnaruwa seja muito posterior, da idade imediatamente pré-colonial.

Os sítios arqueológicos são muito interessantes, e muito bem arrumados numa parque de extensão imensa, podendo os visitantes escolher todos ou apenas alguns dos monumentos. Para além do núcleo central, com o Palácio Real de um lado e as piscinas do outro, e depois fomos visitar o Gal Vihariya, que adorei. Um conjunto de 4 estátuas do Buda, dois sentados, um de pé e um deitado. As estátuas são muito bonitas, a pedra e as marcas da erosão parece que dão vida às esculturas, os rostos são perfeitos. Foram, até agora, as estátuas do Buda de que mais gostei, e o lugar onde me apeteceu passar mais tempo. Naturalmente, a visita ao lugar onde estão as 4 estátuas teve de ser feita de pé descalço.

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rosas

not on my terms

Não deixa de haver uma certa ironia, e até preversamente divertida, na coincidência de Sara Montiel e de Margaret Thatcher terem falecido no mesmo dia; apesar da idade aproximada, nada poderia afastar mais estas duas mulheres, e o lugar que cada uma delas reclama no imaginário do século XX, nomeadamente no masculino.

Sobre Sarita Montiel, melhor do que eu alguma vez conseguiria, o meu amigo João Roque, enquanto fã incondicional, fez-lhe uma belíssima homenagem, cheia de clips dos seus filmes, e que pode ser vista no seu blog Why Not Now, neste link.

Já quanto a Thatcher, quando cheguei a Londres pela primeira vez, em março de 1984, o thatcherismo estava no auge. A vitória na guerra das Malvinas tinha deixado Margaret Thatcher no máximo da popularidade, e de certo modo deu-lhe a carta branca para o seu processo de reformas que iria alterar o rosto, desfigurando-o, diria eu, do Reino Unido.

Os noticiário eram dominado pela greve dos mineiros, que tinha começado há poucas semanas, e que iria terminar mais de um ano depois. Nunca me esqueci do nome de Arthur Scargill, o presidente do sindicato dos mineiros. Thatcher nunca cedeu ao movimento unionista, e quando a greve dos mineiros terminou, chegara igualmente ao fim a era em que os sindicatos tinham peso decisivo nas decisões políticas.

A implementação daquilo a que chamou o capitalismo popular representou a privatização de todos os importantes serviços públicos ingleses, e o desmantelamento do estado de bem-estar inglês. Thatcher inventou verdadeiramente os homeless, as pessoas que, sem emprego e sem segurança social, não tinham outro remédio senão vir viver para as ruas. A sua sanha contra o Estado levou-a a encerrar inúmeros serviços públicos, e, na passada, extinguiu todos aqueles que representavam bastiões do poder trabalhista (a câmara de Londres foi uma delas, apenas restaurada na era Tony Blair, e que hoje, curiosamente, está nas mãos de um Tory).

Na saúde, fechou inúmeros hospitais psiquiátricos, lançando multidões de doentes para as ruas, com a desculpa de os devolver à comunidade. Na educação aplicou a infâme Cláusula 28 que proibia as escolas de utilizarem material didático, nomeadamente livros, obras literárias, mesmo clássicos incontornáveis, que de algum modo pudessem “promover” a homossexualidade, nomeadamente porque a representassem de forma não descriminatória.

A semana passada, por ocasião da sua morte, o parlamento inglês promoveu uma moção em tributo da baronesa Thatcher. Num video que já corre o YouTube, a MP trabalhista Glenda jackson, antiga actriz de excelente memória, traça um retrato negríssimo da era Thatcher, alertando para o facto de a Inglaterra poder estar a entrar num período de novo thatcherismo. Com a finura que os ingleses têm sempre nestas coisas, diz Glenda Jackson que nem sequer homenageia Thatcher por ter sido a primeira mulher a exercer o cargo de primeiro-ministro no Reino Unido. Pode ter sido o primeiro primeiro-ministro do sexo feminino, mas “Thatcher a woman? Not on my terms.”