April 16th, 2013

rosas

o varandim seguido de ocaso em carvangel

mariolivrob

Quando li o livro Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, do escritor Mário de Carvalho, tive um pouco a sensação de estar a ler um livro escrito noutro idioma, de tal forma a linguagem utilizada constitui um sistema perfeito e coerente, e completamente ao serviço da narrativa, que tem pouco a ver com aquele português que usamos de maneira mais banal e corrente. Não sei se me explico bem, mas não é que se trate de um português erudito, ou difícil ou arcaico ou seja o que for fora de vulgar; é mais no sentido de que o escritor de facto constrói um vocabulário próprio e adequado àquela narrativa, e que é tão coerente que parece que estamos a ler num idioma que não é aquele que utilizamos correntemente.

Voltei a ter essa sensação ao ler as duas novelas que aparecem sob o título compósito do mais recente livro de Mário de Carvalho, O Varandim Seguido de Ocaso em Carvangel. Ainda que em modos não inteiramente coincidentes, cada uma das novelas lê-se desse modo extraordinário, no qual o leitor parece que entra numa dimensão da língua que não é aquela em que está quotidianamente viciado.

As duas novelas partilham uma certa unidade de lugar e de tempo: um grão-ducado no centro da Europa (que poderá ser ou não o mesmo em ambas), e um século que pode ser o dezanove. Partilham ainda o sentido de humor, ou, como mais apropriadamente ouvi o autor referir numa entrevista, o sentido lúdico, em que o livro vai mais além do prazer da leitura, é um desafio, uma brincadeira, por vezes um verdadeiro jogo. Se O Varandim aposta mais nessa linguagem coerente e codificada, Ocaso em Carvangel apela muito mais a este sentido lúdico: para além dos nomes das personagens, que são um exercício de humor, parecem aqueles passatempos feitos de anagramas, há animais e plantas míticos e outros completamente inventados, e há sobretudo uma imaginação mirabolante, com tangentes ao género da fantasia, tudo apresentado como a mais burguesa das narrativas novecentistas.

Têm-me escapado os livros mais recentes de Mário de Carvalho, um pouco por cansaço meu, confesso. Mas estas duas novelas reconciliaram-me inteiramente com o autor, que, apesar de ter escrito grandes romances, é um verdadeiro mestre das narrativas curtas, sejam elas o conto ou, como neste caso, a novela.
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taprobana, ida e volta. 5/12

25.3.2013 (segunda-feira)
De manhã, Aukana, e um Buda espectacular, do século V, esculpido na rocha de granito. A veste da estátua é um prodigio de delicadeza e vivacidade, sob certos ângulos parece ondular à brisa da manhã.

De tarde, Anuradhapura, e todo o seu esplendor. Uma das antigas capitais do Sri Lanka pré-colonial, conflui o interesse histórico e cultural com o significado religioso. Apenas visitámos três dos principais monumentos, vestígios muito bem preservados da antiguidade singalesa. Percorri descalço o longo caminho que vai desde a dagoba até à figueira sagrada. A sensação de andar descalço a passear no meio dos peregrinos é única, um misto de inibição, por achar que é evidente que não costumo andar descalço, e de entrega, uma entrega dissipada, como se no acto de nos descalçarmos perdessemos tudo o que nos pode tornar arrogantes.

Claro, andar descalço é obra, para quem não está habituado. As superfícies de pedra ou de tijoleira queimam, as mais rugosas, como a areia, magoam. Mas é muito bom. À saída de Anuradhapura uma daquelas chuvas tropicais quentes e intensas, que demoram um quarto de hora e que desaparecem com a mesma rapidez com que chegaram. Há muito tempo que eu não apanhava uma chuvada destas, para aí desde que estive na Malásia, e quando digo ‘apanhar’ é mesmo de levar com ela em cima.

As estradas no Sri Lanka são estreitas, sinuosas e muito usadas, o que transforma qualquer viagem de 50 ou 60 quilómetros numa expedição de 2 ou 3 horas. Quase toda a edificação (pública, religiosa, comercial, privada) está encostada à estrada e o parque de estacionamento é, naturalmente, a pista alcatroada da estrada. A vantagem é que se passeia pelo campo, que é lindíssimo, com enormes áreas de arrozais. A propósito, vimos vários grupos de agricultores a secarem o arroz estendendo-o no próprio asfalto quente da estrada, obrigando o trânsito a fazer-se, alternadamente, apenas numa via estreita e pela berma.

As árvores são fabulosas, outro espectáculo, de porte, variedade e beleza. A paisagem faz-me muito lembrar a da minha infância em Moçambique, a das zonas rurais, como a da estrada para as Chocas, a da quinta da D. Adelina e do Sr. Pereira, ou a de Iapala, onde passei algumas férias. As casas á beira da estrada com os pátios de terra batida muito varridos e limpos, as árvores do jardim diferentes das do quintal de trás, os utensílios utilizados na agricultura.

Perguntei qual o nome em singalês das árvores do frangipani, que se vêm imensas ao longo da estrada, nos jardins e nos quintais, quase todas brancas, mas também algumas rosadas. É ARALIYA. São lindíssimos, os frangipanis, árvores muito bonitas e simples, a lembrar um pouco as magnólias na forma dos troncos. E, claro, são mais um elemento em comum com Moçambique.

Quis saber, porque tive a ideia para um conto, sobre um jovem e uma árvore do frangipani. O conto teria um certo espírito budista, que tivesse a ver com as ideias de contiguidade e continuidade.

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