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Saint
rosas
innersmile
"Morre jovem o que os Deuses amam”, disse Fernando Pessoa a propósito da morte do seu amigo Mário de Sá-Carneiro. E acrescentou: “Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam.”

Olhando agora para trás, agora que já sabemos que tudo acabou, de certa forma este é um desfecho que parecia escrito. O Saint era um tipo inteligentíssimo, talentoso como raros e como raros generoso, perspicaz e sensível, dotado de um humor prazeiroso mas também cruel e corrosivo. E era mais, uma pessoa destemida, transbordante, sem medo do excesso e tropeçando nele quando era preciso. Era o MC em pleno domínio do circo de três pistas que era a sua vida intelectual e emocional, mas que era sobretudo a sua visão do mundo. Os Deuses amavam-no, sem dúvida. Talvez por isso, esta tragédia parece inscrever-se com alguma previsibilidade no seu percurso. Tanta energia, tanta grandeza, tinha de explodir um dia, mais cedo do que tarde. Como uma estrela, como uma supernova.

Mas o Saint era igualmente terno e carinhoso, quando queria e quando isso lhe dava prazer. Comigo sempre foi, talvez um pouco por piedade, por julgar que eu era frágil (ou pelo menos mais frágil do que ele) e que ele tinha de me handle with care. Ao longo dos dez anos em que fomos amigos, ele nunca me magoou, e usava comigo de uma delicadeza e de uma cautela, como se me quisesse poupar a um fogo que ele julgava que era mais poderoso do que eu conseguiria suportar. Nunca nos aborrecemos um com o outro, nunca nos desencontrámos, e sempre que entre nós havia alguma, ainda que ligeira, ligeiríssima, turbulência, tenho consciência de que era eu que a provocava, porque nunca dediquei ao Saint a delicadeza e a subtileza que ele me dedicou. Acreditava, ou fingia acreditar, talvez porque isso me fosse mais cómodo, que de facto ele era mais forte do que eu.

Devo-lhe tanto. Devo-lhe a amizade, claro, o facto de ele se ter encantado por mim, ainda antes de eu ter consciência de que iria ficar para sempre encantado por ele. Num dos primeiros posts do seu blog Opiário (em homenagem ao poema de Álvaro de Campos), em 2003, intitulado ‘Obsessão’, o Saint escreve apenas isto: “Eu estou apaixonado pelo journal deste cara”, com um link para o innersmile. Escrevo-o aqui não por vaidade, mas porque essa frase é testemunho daquilo que o Saint construiu para nós dois.

Devo-lhe, amar profundamente o Brasil, alargar o meu amor e o meu conhecimento já antigos, pela música popular brasileira a muitos e variados aspectos da cultura brasileira. Devo-lhe, aliás, muitas descobertas de cantores e músicos brasileiros. O Saint partilhava comigo as novidades e os sites onde podia fazer downloads gratuitos, e quando eu não conseguia, mandava-me os ficheiros por correio electrónico.

Tudo o que sei, e amo, da literatura brasileira devo-o ao Saint. Tudo, rigorosamente tudo. Devo-lhe Lygia e Quintana, e só isso bastava para a dívida ser impagável. Mas devo-lhe um amor maior, que é o que tenho pela literatura de Caio F. Ainda no verão passado, cheguei a casa um final de dia, e tinha um pacote com dois livros de duas escritoras brasileiras que o Saint respeitava e admirava muito, que um portador do Saint me veio depositar na caixa do correio, quando ele esteve em França e na Alemanha, a realizar o seu grande sonho de conhecer a Europa.

Devo-lhe o facto de escrever. O Saint acreditava mais, incomparavelmente mais, na minha escrita do que eu próprio. E se é verdade que isso é mais uma prova da sua generosidade, o ponto é que eu acreditava nisso, não por vaidade ou auto-convencimento, mas precisamente porque era o Saint a dizê-lo, e quando ele o dizia, e apenas quando ele o dizia, eu sentia-me verdadeiramente um escritor.

A minha vida enriqueceu-se com o Saint, e agora vai inevitavelmente ficar mais pobre. ‘Nunca mais’, e isso parece-me insuportável, porque ‘ainda agora’ e eu já estou cheio de saudades dele. E com remorsos de lhe ter dado tão pouco, apesar de saber, de ter a cristalina certeza, de que o Saint sabia que eu o amava tanto como ele me amava a mim, e de que sempre estava presente na sua vida como ele estava sempre presente na minha.

Por isso dá-me algum consolo saber que ele tinha absoluta consciência de que a nossa relação era mútua, e que nunca exigimos ou devemos um ao outro nada que não decorresse naturalmente do imenso prazer que tínhamos em ser amigos um do outro, e da consciência de que tinha sido um extraordinário privilégio, neste mundo tão vasto, termo-nos cruzado, e encontrado para sempre.

Na única ociasião em que nos encontrámos, em 2004, passámos dois ou três dias inseparáveis. Num deles, andámos a passear pelo centro do Rio, e no sebo Beringela eu comprei, além de livros, um cd pelo qual me apaixonei ainda antes de o ouvir, e que continua a ser um dos meus discos de cabeceira. É desse disco a canção que, se eu pudesse, tinha posto no caixão do Saint para estar sempre com ele.

Se a vida e a morte fazem sentido, meu irmão, minha alma gémea, um dia nos reuniremos de novo. Só assim, com essa promessa tão frágil e desamparada, posso suportar a tua ausência. Até lá, prometo-te que carregarei sempre comigo a intensa e única felicidade que foi termo-nos encontrado.