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Há já muito tempo que tinha vontade de conhecer a obra de W.G. Sebald. Agora, finalmente, uma prenda de aniversário deu-me essa oportunidade. Adorei Austerlitz e fiquei com uma vontade imensa de ler mais livros do autor, num daqueles entusiasmos que não são muito frequentes, que é quando um escritor nos arrebata, parece que está a escrever só para nós.

A estrutura do livro é um diálogo, quase um longo monólogo, entre o narrador e Austerlitz, a personagem, estabelecido ao longo de vários períodos temporais. Nesse diálogo, Austerlitz vai diletando sobre os seus interesses culturais, e vai sobretudo revelando a sua extraordinária história pessoal, firmada sobre um certo desacerto da sua alma em relação ao mundo. Aos poucos, vamos percebendo que no centro do romance está a destruição da civilização europeia pelo nazismo e pela sua abdominável máquina de nivelação pelo horror, e a desamparada e difícil construção de um novo espírito europeu sobre os escombros da segunda grande guerra.

Apesar do tom negro do romance, não se trata de um livro triste ou deprimente. Há um certo prodígio no olhar de Austerlitz e é esse olhar que nos vai levando quase como se levitássemos a uma distância segura dos despojos das almas destruídas dos europeus. Há humor, mas há sobretudo uma escrita que na sua aparente simplicidade, nos seduz e embala como uma peça de música.

Comecei a ler o livro antes de férias, mas a maior parte li-a já no fim delas, nos dois dias em que estive na praia, em sessões de espreguiçadeira à sombra das árvores frondosas dos jardins do hotel. E foi muito estranho lê-lo assim entre banhos de mar e mergulhos na piscina, uma paisagem completamente dessintonizada em relação ao tom pesado do livro, e à sua magoada melancolia. Acho que mesmo assim o tom do livro foi mais poderoso do que a leveza da paisagem, e parece-me que passei esses dois dias tocado por uma certa tristeza do livro (ou então seria mesmo a das férias estarem a acabar!) Mas talvez também por isso, o livro tocou-me muito, foi quase uma viagem íntima e sensitiva, em contraste e a acrescentar à viagem que eu próprio estava a fazer.

Como disse, bastava este Austerlitz para W.G. Sebald entrar para a galeria dos meus escritores favoritos. Mas a vontade de ler mais é muito grande, e tenho a certeza de que não demorará muito a lê-lo de novo.
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"Voltou para casa na hora de sempre e, como sempre, parou alguns minutos na lojinha onde se abastecia de pão preto, frios e bebidas. No inverno preferia vinho tinto a cerveja, era melhor para a elegância e para o coração. Nos últimos tempos estava tentando substituir o jantar por um lanche, quando muito precedido por uma sopa (de lata). A tentativa fazia parte de um pacote para reduzir ao mínimo as tarefas domésticas. O fogão era já considerado um aparato pré-histórico. Não conseguira, porém, eliminar pratos, copos e talheres. Não suportava comer ou beber com utensílios de plástico."

- Luiz Alfredo Garcia-Roza, VENTO SUDOESTE (Companhia das Letras)