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taprobana, ida e volta. intro
rosas
innersmile
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Mais de mil fotos e clips de video, vinte páginas de um caderno manuscrito em cursivo cerrado e por vezes muito pouco legível, e um Rough Guide cheio de notas e papelinhos avulsos, é de certa forma o balanço de dez dias de viagem ao Sri Lanka, com paragem no Dubai à ida. E é o material de que disponho, e que tenho de tratar, para aproveitar e escrever aqui umas impressões da viagem. Os apontamentos, de certo modo, são o mais fácil de tratar, pois constituem um diário, que só preciso de seleccionar, editar uma ou outra passagem, e corrigir os erros e as gralhas. Se me der muita seca escolher as fotos (e normalmente dá, tiro muitas fotografias e depois tenho preguiça até de as ver todas...), ponho aqui os textos do caderninho e toca a andar.

Gostei muito das férias, e adorei o Sri Lanka. Eu tinha muitas expectativas, e isso é sempre mau, porque como não sabemos o que vamos encontrar, essas expectativas são sempre muito infundadas, e depois as coisas nunca são exactamente como nós esperávamos. Por exemplo, não esperava que o SL fosse um país tão pobre, com um nível de vida tão baixo. Não tem a miséria que há, por exemplo, na Índia, mas ficamos com uma ideia de como as coisas são se pensarmos que as principais fontes de rendimento nacional são o turismo e as remessas dos emigrantes, e quando falamos de emigração de cingaleses, estamos a falar daqueles tipos que emigram aos magotes para a zona do Golfo, onde trabalham na construção civil em condições muito próximas da escravatura. Outro exemplo impressionante: o motorista que quase sempre nos acompanhou, e que tem um emprego suponho que razoável, pois trabalha para a principal empresa de turismo do país, dona da cadeia de hoteís que incluí os melhores da ilha, tem um rendimento anual de aproximadamente 3’000 dolares. Sim, anual!

O país ainda está muito marcado por décadas de guerra civil, e pelos efeitos devastadores do tsunami do Boxing Day de 2004. O governo é nepotista, e apesar do Sri Lanka ser uma democracia, quem tem o poder não olha a meios para o conservar. Mas como sempre acontece nestas coisas, as pessoas, aquelas com quem contactamos e com quem sempre nos cruzamos, são muito simpáticas e afáveis. Apesar do turista (sim, é isso que eu sou, sem complexos) ser sempre visto como uma oportunidade de negócio e, se não for maçar muito, até de trambique!

A paisagem, sobretudo no interior da ilha, é luxuriante, e fez-me recordar com muita intensidade a minha infância e juventude moçambicanas. O Sri Lanka é um país rural, e a agricultura, nomeadamente os arrozais, estão sempre presentes e são uma marca da paisagem.

Apenas visitei o oeste e o interior da ilha. Ficaram por conhecer o norte, o sul e o leste, que têm, tanto quanto me informei, caracteristicas muito próprias e identitárias (o norte é Tamil, o sul tem grandes influências coloniais, nomeadamente portuguesas e neerlandesas, sobretudo na arquitectura). Do que vi, apreendi uma cultura muito rica, ancestral, e muito marcada pela religiosidade, nomeadamente pelo budismo. A viagem que fiz foi também um mergulho, ainda que superficial, pelo budismo, e pela maneira como ele está enraizado na alma do país e dos seus habitantes. Mas é notável a forma como as outras grandes confissões religiosas, sobretudo o hinduísmo, o islamismo e o cristianismo, estão presentes de uma forma tão forte e, pelo menos aparentemente, convivial. Há um símbolo disto que é perfeito: nas traseiras de um hotel em Nuawra Eliya há quatro pequenos altares, em friso, dedicados às quatro religiões presentes no Sri Lanka, e são os vários departamentos do hotel (cozinha, quartos, segurança, etc) que, mediante uma escala afixada, são responsáveis pela sua manutenção.

E pronto. Um dia destes começo a pôr aqui as minhas crónicas da viagem, com ou sem fotos ainda está para ver, e a que decidi neste preciso momento chamar, ainda que um pouco presunçosamente, Taprobana: Ida e Volta.
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