April 2nd, 2013

rosas

medo

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"Os olhos de Marie mudavam de cor à medida que a luz diminuía. E de novo tentei explicar-lhe os sentimentos inconcebíveis que me tinham angustiado nos últimos dias; parecia-me até que as fachadas mudas das casas sabiam de mim coisas desagradáveis, que achava que devia estar sempre só e então mais do que nunca, apesar de gostar muito dela. Não é verdade, disse Marie, que as pessoas precisem de ausência e de solidão. Não é verdade. Tu tens é medo, e eu não sei de quê. Sempre foste um pouco distante, isso vi eu bem, mas agora pareces estar perante um limiar que não ousas transpor. Nessa altura, fui incapaz de admitir que Marie tivera razão em tudo, mas hoje, disse Austerlitz, mas hoje sei porque me sentia na obrigação de me afastar sempre que alguém se aproximava muito de mim, sei que, afastando-me me sentia seguro e que ao mesmo tempo me sentia um ser assustador e odioso, inabordável."

- W.G. Sebald, AUSTERLITZ (Quetzal)