March 19th, 2013

rosas

o quarteto de alexandria

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Agora que já vou a meio do quarto e último volume, Clea, da tetralogia de Lawrence Durrell, é altura de reconhecer que é de facto um livro que se lê e nunca mais se esquece. Não tanto pela história, mais pelas personagens, muito por Alexandria (ler o Quarteto fez-me fazer um esforço de memória incrível, quase em regressão, às poucas horas que passei na cidade), e sobretudo pela complexidade como o livro (prefiro tratá-lo assim, como uma única obra, porque foi assim que a li) está estruturado e escrito.

Suponho que hoje em dia, quando já lemos muito e de tudo, e a literatura é, para o melhor e para o pior, uma arte popular, a leitura de uma obra como o Quarteto de Alexandria não seja tão impactante, mas o carácter inovador dos romances de Durrell é indesmentível e sempre actual.

E não haverá muitos mais romances que nos exponham assim desta maneira, a condição do homem enquanto animal amoroso, sedento e transtornado por um desejo imenso de sexo e afecto, e como a intriga politica e diplomática, e mesmo a guerra, parecem existir apenas como prolongamento da nossa condição de personagens em queda amorosa.

Gostei muito de Mountolive, o terceiro volume do Quarteto, acho mesmo que é o meu preferido, e curiosamente David Mountolive foi também, tenho essa impressão, a minha personagem preferida e aquela com que mais me identifiquei. Mas dizer isto pode dar a ideia de que as famosas personagens de Durrell são ‘characters’ bem definidos, com perfis psicológicos e destinos bem individualizados. Mas não: Justine, Clea, Melissa, Darley o narrador de três dos livros, os irmãos Nessim e Narouz e a sua mãe, Leila Hosnani, o médico Balthazar, Pursewarden e tantos outros personagens, muitas vezes não parecem mais do que representações, uma espécie de totens, ou títeres, onde nos podemos projectar. Talvez porque, de facto, não passem, pelo menos na maior parte das vezes, de projecções do próprio autor.