March 18th, 2013

rosas

ferrugem e ossos (5*)

De Rouille et d’Os (Ferrugem e Osso) poderá não ter aquela energia crua que exalava dos dois filmes anteriores que eu conhecia de Jacques Audiard, De Battre Mon Coeur S’Est Arrêté e Un Prophète, mas ainda assim é um filme especialíssimo, daqueles que vêm conosco quando acaba a sessão, e ficam a marcar-nos o mood durante uns dias.

De certo modo essa energia menos torrentosa advirá do facto do filme ser mais romanesco, de percorrer com risco alguns lugares comuns do melodrama, ou de um determinado tipo de melodrama. Mas o filme escapa aos perigos que arrisca, fazendo recair toda a responsabilidade pela salvação nas suas personagens, na sua força, e no modo até um pouco impiedoso como as trata.

De uma fisicalidade muito rara hoje em dia (e curiosamente os filmes que me vêm à ideia são na sua maioria europeus, ou pelo menos não americanos), o filme encena, com radicalismo para não dizer mesmo com violência, os limites do corpo, o modo como o corpo pode ser a medida da vida e suplantá-la mesmo, e já bastava isto para dar ao filme um erotismo muito forte e perturbador. Stéphanie e Ali como que se encontram nessa experiência limite do corpo, sobretudo na experiência limite de cada um deles em relação ao seu próprio corpo, e essa experiência é tão absorvente que apenas quando se libertam dela, quando de certo modo o corpo experimenta o seu desaparecimento (no caso, o de Sam, o filho de Ali), são capazes de encontrar o amor.

Esta experiência tão radical tinha de ter dois actores especiais, pois apenas através deles poderia, trocadilho intencional, ‘ganhar corpo’. Marion Cotillard e Matthias Schoenaerts são excepcionais. Cotillard tem a capacidade quase comovente de conseguir trazer com subtileza ao rosto, emoções e sentimentos que de facto parecem vir de dentro dele. Quanto ao Matthias Sschoenaerts, confesso que foi uma das principais razões que me levou ao filme; nunca tinha visto nenhum filme com ele, mas já tinha lido muitas referências e tinha uma certa expectativa que foi mais do que confirmada: Schoenaerts é um daqueles actores muito físicos, com uma intensidade quase animal, que o põe no panteão raro de actores como Marlon Brando.