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borboleta voando
rosas
innersmile
No blog Escrever É Triste (www.escreveretriste.com), o Manuel S. Fonseca evoca o livro de Herberto Helder, O Bebedor Nocturno, com “poemas mudados para português” pelo poeta, e que reúne haikus, canções, pequenos enigmas (link). Um dos poemas que Manuel S. Fonseca traz para o seu texto é um lindíssimo enigma asteca que diz assim:

"- Uma coisa que vai pelos vales fora, batendo as palmas das mãos como uma mulher que faz tortilhas?
- A borboleta voando."


Lembrei-me de um almoço num pueblo na Guatemala, junto a Chichicastenango, na Casa del Abuelo Manuel, que, na altura, descrevi assim num texto que pus aqui no innersmile: “O almoço foi nas traseiras da casa, debaixo de um alpendre no quintal, entre flores, galinhas, tanques de água e espigas de milho penduradas. Agulhas de pinheiro a forrar o chão do alpendre e a torná-lo odoroso. Antes de almoçar, as senhoras foram fazer tortilhas e os homens ficaram no alpendre a beber uma espécie de aguardente (seria mezcal?) com gomos de lima e sal. Claro que as senhoras desistiram depressa das tortilhas e juntaram-se à aguardente! Foi um almoço típico da região, or so they say: entrada de milho enrolado em folha de bananeira, sopa de vegetais com pera abacate, pollo com papas a saber a jardineira, tudo acompanhado com tortilhas. Para postres banana frita com frijoles e chá.”

As tortilhas eram feitas por um grupo de mulheres, sentadas em roda no único compartimento de um pequeno casebre, que moldavam a massa com as palmas das mãos e as estendiam em cima de uma chapa ao fogo para as assar. A sala era pequena e escura, cheirava a tortilhas acabadas de assar, as mulheres tagarelavam baixinho e ouvia-se o crepitar do fogo. Mas o som que mais me marcou e que ainda hoje sou capaz de recordar na minha memória auditiva, foi precisamente esse: o das borboletas voando.


Consegui recuperar pedaços de imagens captadas nesse almoço, e fazer um pequeníssimo clip; é pouco, eu sei, a qualidade é paupérrima, mas por entre o barulho das vozes das mulheres e sobretudo das turistas, consegue-se ouvir o som da borboleta voando. Tal e qual como diz o poema e como Herberto o mudou para português.