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this bed is on fire
rosas
innersmile
Como ando sempre muito atrasado com a leitura dos jornais (atenção ao eufemismo, só me demoro a ler o suplemento Ipsilon do Público, o único que guardo para além do próprio dia da publicação), só hoje li uma entrevista feita por António Guerreiro ao escritor Paulo Varela Gomes, a propósito da edição do seu livro O Ano de 2012 (que ainda não li, mas fiquei cheio de vontade de o fazer), e que saíu na edição de 1 de março do jornal.

Paulo Varela Gomes é historiador e investigador, critico de arquitectura, e cronista de imprensa, nomeadamente no Público onde assinou crónicas muito inspiradas, no tom e no tema, pela sua vivência em Goa. Esta entrevista é breve, mas cheia de sumo, e sobretudo muito lúcida em relação ao momento civilizacional que atravessamos. Gostava de a transcrever quase na íntegra, não tanto porque subscreva inteiramente os seus pontos de vista, mas porque acho que eles constituem um murro no estômago de uma certa complacência burguesa que, nos tempos que correm, começa a ser, mais do que ultrapassada, perigosa do ponto de vista da nossa sobrevivência enquanto indivíduos livres e inteligentes.
Como o Público restringe o acesso on-line aos conteúdos do jornal a assinantes, mesmo quando já perderam actualidade jornalística e têm essencialmente interesse em termos de referência, transcrevo apenas um pequeno trecho, tão lúcido que chega a parecer violento, e que é a resposta à seguinte pergunta: «O livro constrói-se sobretudo em torno do tema da doença: a doença literal do protagonista e a doença como metáfora do estado do país e do mundo. Teve presente a respeitável tradição desta metáfora?» E a resposta é a seguinte:

”Sim, essa maneira de ver a civilização a partir de uma metáfora orgânica, biológica, foi um pensamento típico do pessimismo cultural das primeiras décadas do século XX. Tal como nessa época, no princípio do século XXI alguma coisa está a funcionar muito mal no mecanismo. No mundo ocidental (ao contrário da energia imensa que vem do chamado Terceiro Mundo) toda a energia se está a extinguir. Olhamos em volta e vemos um organismo a encolher-se sobre si mesmo. Por exemplo, o decréscimo enorme da taxa de natalidade é o reflexo óbvio de um organismo que se encolhe, que não tem nenhum horizonte a não ser a sua progressiva extinção. E podemos ver o mesmo na extinção de uma quantidade de categorias do pensamento, da política, da economia, como se fossem velas de um bolo a apagar-se. E sem que vejamos nenhuma vela a acender-se. Por mais que haja aldrabões que nos vêm dizer que estão a acender velas, o que estão é a provocar incêndios.”