March 6th, 2013

rosas

público 23

A comunicação social portuguesa é pouco menos que miserável (não generalizo, suponho que haja excepções, e a rádio parece-me ser o meio onde elas serão mais frequentes), seja qual for o ponto de vista, a começar no deontológico e a acabar na qualidade do produto, passando pela qualidade dos profissionais e pelas condições de trabalho.

Se essa miséria é mais patente na televisão, é na imprensa escrita, acho eu, que ela é mais subreptícia e lamentável. Em Portugal havia, até há não muitos anos, excelentes jornais e revistas, sobretudo na área da informação. Hoje a larga maioria são ilegíveis, e, o que é pior, perderam qualquer capital de confiança: sabemos que a verdade é relativa, mas sobretudo manipulável, e desconfiamos de qualquer notícia acerca de qualquer assunto.

O Público foi durante muitos anos o meu jornal preferido, até porque foi um projecto que acompanhei, enquanto leitor, desde o primeiríssimo número, aliás desde as edições zero que foram lançadas antes da primeira. E continuo a ser um leitor quase diário do Público, e o site do jornal é, normalmente, aquele a que acesso em primeiro lugar quando ando à procura de alguma coisa. Mas reconheço que o Publico não só já não é o que era, como está muito longe de ser o que já foi.

Todavia continua a ser um jornal com boas ideias e que de vez em quando consegue surpreender, pela positiva note-se, os seus leitores. Ontem assinalou-se o 23º aniversário da primeira edição e como já tem acontecido anteriormente, foi convidado um director para a edição especial de aniversário: o cineasta Miguel Gomes. Uma das iniciativas da edição de aniversário, foi convidar determinadas pessoas para escreverem uma espécie de prolongamentos das notícias, levando-as para o terreno puro da ficção e, dessa forma, fazendo um comentário às próprias notícias, mas principalmente à maneira como sentimos o impacto do quotidiano.

Mas a iniciativa que achei mais espectacular, e não me recordo se já foi feita anteriormente, foi convidar um grupo de alunos de uma escola do primeiro ciclo para desenharem por cima das fotografias. Suponho que todos nós já alguma fez fizemos isso, desenhar por cima das fotos, pondo óculos ou bigodes (ou chifres, pois!) nos retratos das figuretas que aparecem nas fotos dos jornais. O Público radicalizou a ideia, e não houve uma única fotografia do jornal, nem as mais sérias, nem as mais emocionais, que não tenha tido direito a um intervenção dos artistas convidados.

O resultado da iniciativa foi surpreendente. Primeiro porque o jornal parecia que já estava usado, e causava uma péssima primeira impressão, como se tivéssemos apanhado o jornal numa mesa de café e o anterior leitor tivesse sido um energúmeno desrespeitador dos outros. Mas passada esta primeira impressão, o efeito era fantástico, uma leitura da realidade ali entre o non-sense mais absurdo, e a subversão mais terrorista, com aquele sentido de transfiguração e de suplantação do real que só os míudos são capazes de ter. Ontem foi uma das ocasiões em que ser leitor do Público me voltou a dar prazer e até orgulho.