February 27th, 2013

rosas

arendt

"Lipstadt e Cesarani são judeus como muitos dos que pior reagiram ao livro de [Hannah] Arendt, incluindo o seu grande amigo Gershom Scholem (Arendt e Scholem, dois típicos intelectuais judeus da República de Weimar, mantiveram desde o final dos anos 30 uma longa correspondência em alemão), sionista e professor de misticismo, que a criticou duramente pela sua «falta de solidariedade com o povo judeu». Arendt respondeu que «nunca tinha amado na vida nenhum povo ou colectivo», porque só acreditava no «amor pelas pessoas» - «Esse ‘amor pelos judeus’, a mim que sou judia, parece(-me) bastante suspeito. Não me posso amar ou amar algo que sei ser parte de mim próprio», argumentaria”.

Retirei este trecho de um artigo muito interessante da autoria de António Rodrigues, publicado no suplemento Ipsilon do jornal Público de 15-02-2013, que assinala os 50 anos da publicação da reportagem que a filósofa Hannah Arendt fez para a revista New Yorker sobre o julgamento, em Jerusalem, do criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela implementação da ‘Solução Final’, a política de Hitler que visava a exterminação do povo judeu.

O artigo aborda (e o trecho citado é exemplo disso) sobretudo a forte contestação que o artigo de Arendt sofreu, ao defender, no âmbito dos estudos que a autora dedicou ao totalitarismo e suas origens, que o fenómeno nazi, e consequentemente o holocausto, se deveram mais à banalização do mal, ou seja ao facto de as pessoas comuns conseguirem conviver com o horror, do que propriamente à diabolização de algumas mentes monstruosas que o inventaram; por isso, o artigo de Arendt provocou a ira dos seus críticos, nomeadamente dos políticos e intelectuais mais identificados com o sionismo, ao defender que Eichmann, mais do que um monstro, foi um burocrata do horror.

Mas a razão porque me impressionou o trecho acima, e pela qual decidi trazê-lo para aqui, é que me pôs a pensar sobre questões de uma acutilância intelectual cirúrgica, nomeadamente o facto de não podermos sentir verdadeiro amor pelo colectivo, numa espécie de negação do nacionalismo. E de não fazer sentido amarmo-nos a nós próprios, ou melhor, amarmos em nós aquilo que não depende da nossa vontade, aquilo que faz parte de nós queiramo-lo ou não.

Desta maneira subtil mas poderosíssima, Hannah Arendt desqualifica o excesso de amor-próprio, a arrogância, como princípio de vida. Nesta medida, para além de, em termos colectivos, contestar a validade política do nacionalismo, afirma, de maneira radical, e como valor individual (mas também ele político) a premissa de que o amor só faz sentido (só tem valor) se for pelo outro, para os outros.