February 23rd, 2013

rosas

beasts of the southern wild (2*)

Confesso que não me entusiasmei com Beasts of The Southern Wild. O meu amigo José, no intervalo, comentou que o filme era uma mistura de instagram com Garcia Marquez, e parece de facto não haver muito mais do que isso.

Comecei por não perceber bem a ideia do filme. Por um lado, parece ter uma intenção política, ao contar a história de uma pequena comunidade que vive fora dos diques de protecção do Bayou no Louisiana, usando-a como metáfora de uma marginalidade, livre e desprotegida, frágil mas resiliente; e de como essa comunidade viveu, e sobreviveu, à catástrofe do furacão Katrina. Mas, por outro, desde cedo o filme parece escolher o campo abstracto da fábula como o prato forte da sua narrativa, onde interessam sobretudo os valores simbólicos. Hesitante em ser uma coisa ou outra, o filme acaba por não ser nenhuma delas, e eu pelo menos nunca consegui fazer uma leitura clara.

Mas o que mais me incomodou foi uma certa glorificação da miséria como caminho para a liberdade. Não entendo. O filme não mostra nada de culturalmente relevante que dê estrutura e força àquela comunidade; sabemos, mas é por fora, que estas comunidades do Bayou são sobretudo piscatórias, mas nada disso está no filme. Miséria, alcoolismo, com as consequentes rapina do lixo e brutalização das relações humanas, parecem ser as únicas coisas que marcam aquele grupo de pessoas.

A desorientação de ideias é acompanhada pela dos processos. O filme, do ponto de vista narrativo, é pouco subtil, e, na fotografia como na banda sonora, nunca consegue ultrapassar o efeito fácil.

Mas nem tudo é mau, e o filme é salvo (ia escrever sobretudo, mas é mais exclusivamente) pela Quvenzhané Wallis e pelo modo como ela habita Hushpuppy, tornando-a uma personagem esquiva, dona de um mistério que nos intriga e cativa, e que nunca conseguimos desvendar. O corpo, mas sobretudo o rosto de Quvenzhané prende-nos o olhar, quase como um sortilégio, como se de alguma maneira nos convencessemos de que se nunca desviarmos dela um olhar intenso, eventualmente conseguiremos ser capazes de lhe desvendar a alma. Nunca o conseguirmos é, como disse, a principal razão porque apesar de tudo vale a pena ir ver este filme.