?

Log in

No account? Create an account

conto: em trânsito
rosas
innersmile
EM TRÂNSITO




”Isso sem ter dormido quase nada entre o show de terça no Recife e a viagem de quarta/quinta para Sanremo via Lisboa e Nice.” - Caetano Veloso, no blog Fala Caetano, entrada do dia 17 de fevereiro de 2013.




Caetano, acompanhado pela pequena entourage com que sempre viaja, está sentado numa das salas para passageiros em trânsito, do aeroporto de Lisboa. É madrugada, e Caetano, alto, magro, grisalho, vestindo com sobriedade, bom gosto e muita comodidade, tem um ar cansado, que a sua aparente boa disposição não disfarça.

O aeroporto está praticamente deserto, a luminosidade muito reduzida, as lojas e os bares encerrados. Espalhados ao longo da sala, outros passageiros, em pequenos grupos familiares, tentam passar o tempo ou reconciliar o sono. São quase todos provenientes do voo de Recife, e aguardam, como Caetano, a ligação para Nice. As crianças, muito poucas, dormem estendidas nos bancos corridos e pouco confortáveis.

Uma das companheiras de viagem de Caetano tira três garrafas de água da máquina automática, e estende-lhe uma delas. Caetano tem os fones colocados e brinca com o seu smartphone. A luminosidade intensa do pequeno ecrã dá ao rosto de Caetano um brilho branco, um pouco fantasmagórico, que sobressai na penumbra da sala. Percebe-se, pelos olhares e pelas trocas de cochichos, que muitos dos outros passageiros o reconhecem, mas ninguém se aproxima ou tenta entabular conversa, fruto, muito provavelmente, mais do cansaço do que da discrição.

Uma voz feminina, monocórdica e metálica, chama, pelos altifalantes, os passageiros com destino a Nice para se dirigirem para a porta de embarque. Caetano desliga o smartphone, que coloca no bolso do casaco, atira, com um piparote dos dedos, a garrafa de água vazia para um cesto do lixo, e levanta-se. A mesma moça de há pouco, entrega-lhe agora a documentação de embarque e o passaporte, e Caetano coloca-se na fila de passageiros para o embarque.

Uma claridade ainda muito ténue começa a rasgar o negro céu de Lisboa.
Tags: