February 18th, 2013

rosas

as magnólias

Ao fundo da rua onde eu trabalho, há uma rotunda. Raquítica, implantada num cruzamento minúsculo, às horas de ponta acumula mais tráfego do que o que distribui, numa das zonas da cidade com maior densidade de automóveis nas horas de expediente. Passa-se por ela sem dar por isso. E no entanto...

No entanto, num dos passeios dessa rotunda, e nos jardins das vivendas que ficam ao seu redor, há três ou quatro magnólias, rosadas e uma branca, que estão, nesta altura do ano, carregadinhas de flor. Não é bem carregadas, é mais a explodir, como acontece com as magnólias, que florescem antes de nascerem as folhas.

Um dia destes mandaram-me uma fotografia aérea do jardim do sítio onde eu trabalhava, e lá está, como um epicentro do olhar, a “minha” magnólia. Sim, foi assim que me escreveram: “olha como está, hoje, a tua magnólia”.

Pode parecer pouco, mas estas magnólias que, por breves semanas, incendeiam os lugares mais insuspeitos da cidade, resgatam-nos da cegueira parda dos dias.
rosas

justine

Acabei ontem de ler Justine, o primeiro livro d’ O Quarteto de Alexandria, a tetralogia que Lawrence Durrell escreveu a partir das memórias das suas vivências na cidade egipcia do Mediterrâneo na altura da Segunda Grande Guerra.

Era um livro, ou melhor um conjunto de quatro livros, que eu perseguia para aí há uns trinta anos, e que nunca tinha tido coragem de lhe pegar porque suspeitava que a sua leitura seria demasiado exigente, até para a minha capacidade de me concentrar e de entender. A edição recente dos quatro livros num único volume trouxe-me de novo a vontade de o ler, mas acabei por comprar uma edição em e-book, e estou a lê-lo no Kindle. Ou seja, ainda por cima em inglês.

E é de facto um livro muito exigente, profundo e reflexivo, muito inspirado pela filosofia e pela poesia. Além disso, a narrativa não é linear, tem vários planos, e é muito subjectiva: o narrador é um dos principais protagonistas e a história é assumidamente contada a partir do seu ponto de vista. Mas ao mesmo tempo é uma escrita muito fluída, lê-se quase com a fluidez com que uma folha, ou um barco de papel, delizam na correnteza de um ribeiro. É dos poucos livros que conheço em consigo ler em voz alta as frases pela primeira vez, e acertar na sintaxe da frase, de tal forma a escrita é ritmada e a sua construção muito natural.

Não sei se vou conseguir ler todos os volumes do Quarteto; ao longo deste primeiro, passou-me algumas vezes pela cabeça a ideia de desistir. Sobretudo porque a escrita de Durrell exige tempo e dedicação, e eu tenho pouco tempo para me dedicar à leitura, e por isso aprouvêm-me mais livros nos quais me seja mais fácil concentrar. Mas para já está lido este Justine e comecei a ler o segundo volume do Quarteto, Balthazar.