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o papa, segunda parte
rosas
innersmile
Ontem, depois de ter aqui posto o texto sobre Bento XVI e a sua renúncia, fiquei a pensar numa coisa que escrevi, o facto de Joseph Ratzinger ter decidido, por sua livre vontade, abdicar do imenso poder que lhe confere o cargo de Sumo Pontífice (“clothed in immense power”, como diz o Lincoln de Spielberg e de Tony Kushner). Fiquei a pensar, mais propriamente, se essa afirmação seria inteiramente correcta e sendo-o, de que é que é feito (de que matéria) esse imenso poder que o Papa detém.

E lembrei-me de uma anedota antiga que conta que o Papa regressava de uma viagem de avião, sozinho, e que apenas tinha no aeroporto à sua espera o motorista. No caminho de regresso ao Vaticano, o Papa disse ao motorista que desde que era Papa nunca mais o tinham deixado guiar um automóvel e que tinha muitas saudades de conduzir. Propôs então ao motorista trocarem de posição durante o percurso da auto-estrada e o pobre do motorista, apesar de muitos protestos e com a certeza de que a história teria forçosamente de acabar mal para si, teve obviamente de ceder. O Papa vinha animadíssimo a conduzir e, claro, começou a carregar no acelerador, ao ponto de um polícia o ter mandado parar por excesso de velocidade. O polícia aproximou-se do carro, pediu a identificação do condutor e regressou à sua própria viatura, muito pálido, e contactou a esquadra pelo rádio:
- Chefe, não imagina o que me aconteceu, não sei o que hei-de fazer.
- Então, homem, que se passa?
- Mandei parar agora um automóvel em excesso de velocidade e o Chefe nem imagina de quem é o carro...
- Então? Do Director da polícia? Do Ministro?
- Upa upa, Chefe.
- O quê? Do Primeiro-ministro?
- Não Chefe, mais acima.
- Mais acima? Do próprio Presidente?!
- Não Chefe, mais acima. De Deus, Chefe!
- De Deus, homem? Mas como?!
- Então, Chefe, o Papa é que é o motorista...


Lembrei-me também, inevitavelmente, do filme Habemus Papam, que o Nanni Moretti fez aqui há um par de anos, e que punha o Papa eleito pelo conclave, representado por Michel Piccolli, a ter gravíssimas dúvidas acerca da sua capacidade para desempenhar o cargo e, por isso, muitas hesitações em aceitar a nomeação.

Estive a ler nos jornais as opiniões dos analistas e observadores mais especializados nas questões do Vaticano, e muitos deles apontam, entre as razões que estão na base da renúncia, o reconhecimento pelo Papa da sua incapacidade em governar a hierarquia caótica de uma igreja em profunda crise, minada por casos de corrupção e por escândalos muito graves (como o da pedofilia), e que, na sua grande maioria, foram herdados por Bento XVI do anterior pontificado, nomeadamente por causa da lenta e longuíssima agonia, de João Paulo II.

Mas como escrevi aqui ontem, nunca saberemos ao certo as razões que levaram Ratzinger a abdicar, e por isso só podemos mesmo aceitar as explicações que Bento XVI deu aos cardeais. E são essas que aproximam este Papa renunciante da imensa e frágil solidão do Papa de Moretti, quando deambulava pela noite de Roma, nos transportes públicos ou nos pequenos cafés de bairro, à procura das respostas que estavam inscritas no rosto das pessoas comuns com quem se ia cruzando.