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teoria geral do esquecimento
rosas
innersmile
9789722049603

Li numa fervurinha o livro Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa. Sou grande admirador dos livros de Agualusa, de uns mais do que de outros naturalmente, e acho que este é dos melhores que eu li.

Quer ao nível da história, centrada numa mulher portuguesa residente em Luanda que, amedontrada com os acontecimentos relacionados com a independência de Angola, se fecha em casa e passa os trinta e tal anos seguintes sem sair à rua; quer em relação à linguagem, que nunca como neste livro, me pareceu tão justa e económica, por um lado, mas ao mesmo tempo tão alegre e solta e colorida, bem ao feitio da ambiência e de uma certa maneira de ser africana.

Dito que se trata de um dos melhores e mais conseguidos livros de Agualusa, não há muito mais a acrescentar, a não ser que é de leitura obrigatória e, já agora, compulsiva. Ah, e também que Agualusa é o escritor de língua portuguesa que tem mais talento para nomear os seus livros: este, como tantos outros, é um livro que nos seduz logo pelo título.

o papa
rosas
innersmile
Achei curiosa a enorme repercussão que teve nas redes sociais (nacionais e internacionais) o anúncio feito pelo Papa Bento XVI de renúncia ao pontificado. Eu não gosto do papa, nem deste nem dos outros antes, pela mesma razão de que não gosto de religiões, da católica em particular, mas apenas pelo facto de ser a que conheço melhor e a que mais me incomoda.

Mas confesso que a decisão de Ratzinger me fez prestar mais atenção ao Papa e até sentir alguma admiração pelo homem. Não sabemos, como é evidente, as razões que estão por detrás dessa renúncia, nem, para falar com franqueza, elas me interessam. Mas como dizia o Salazar, “em política o que parece, é” e por isso só faz sentido aceitar a razão que foi assumida por Bento XVI, a de que o corpo está cansado e já não se sente com forças para desempenhar o cargo.

E é nessa medida que só posso sentir admiração por alguém que tem poder e que renuncia a ele pela simples razão de que já não se sente com capacidade para o deter. Ou seja, por razões que lhe dizem única e exclusivamente respeito. Há aqui uma racionalidade que me surpreende, porque é muito rara nos homens, sobretudo (mas não só) naqueles que tem o poder de conduzir ou influenciar a vida dos outros. Mas há também uma grande dose de coragem, porque significa abdicar de tudo para se confrontar com o vazio da sua própria pessoa. Ora, isto não é para qualquer um! E, digo-o sem ponta de ironia, Joseph Ratzinger entra para a galeria (restrita, diria eu sem querer parecer presunçoso) dos homens do meu tempo com quem aprendi pelo seu exemplo. E homens e vidas exemplares, convenhamos, não abundam, principalmente em tempos e sociedades em decadência.

Mas comecei por dizer que me surpreendeu a reacção das redes sociais à notícia, sobretudo a quantidade de comentários e posts sobre o assunto. Ainda que muitas dessas reacções sejam, como é habitual nestas coisas, por puro mimetismo (como no poema de Pessoa, e, vá lá, do Zeca, “vinha tudo à gargalhada, uns por verem rir os outros e os outros sem ser por nada”); mas o facto é que mesmo descontando esse efeito, as pessoas reagiram, e foram muitas a reagir e a reagir muito.

Houve de tudo, é claro. Comentários de puro gozo, expressões de indignação pelo facto de o Papa ser o mais conservador e reaccionário de uma organização muito conservadora e reaccionária, piadas e piadolas, expressões de admiração pelo homem e pela sua decisão, e até quem aproveitasse o exemplo para recomendar o gesto às figuretas da nossa república das bananas. Porquê este interesse maciço pelo Papa e pela sua renúncia?

Naturalmente, há sempre aquele desejo de expressarmos a nossa opinião por um acontecimento fora de vulgar e que, de alguma maneira, faz parte daquele menú de notícias do nosso mundo: o Papa apela á paz na Papua, o Papa foi nazi na sua juventude, o Papa proibe a utilização do preservativo e correu com o burro do presépio, e, finalmente, o Papa renuncia ao pontificado! Para mais, com a agravante de não haver uma notícia destas há seiscentos anos, e por isso sermos dos raros seres humanos, na história da humanidade, a terem a oportunidade de mandar umas postas de pescada sobre o assunto.

Mas atrevo-me a acrescentar que o impacto enorme desta notícia teve sobretudo a ver com o seu mistério. Não conseguimos entender esse gesto, tão simples mas tão impenetrável, de um homem que renuncia, que tem e logo a seguir abdica do que tem e vai-se embora com a sua solidão. E perante o insondável, das duas uma: ou somos capazes de suportar o silêncio ensurdecedor da nossa frágil pequenez, ou desatamos a tagarelar e a bater em latas para disfarçar e passar adiante.
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