February 4th, 2013

rosas

lincoln 5*

É curioso ter visto na mesma semana o Django de Tarantino e, agora, o Lincoln, de Steven Spielberg. Ambos os filmes têm como motor da narrativa a escravatura nos EUA e o seu papel determinante, enquanto alicerce de um modo de vida e de uma economia, na guerra da secessão norte-americana; nessa medida são ambos filmes com uma leitura política, ainda que o façam de modo muito diverso, mas ambas com profundidade e intensidade.

Este Lincoln de Spielberg mostra um realizador em pleno domínio não apenas da sua linguagem, mas de todo um sistema de valores artisticos que estabelecem uma cinematografia e, nessa medida, uma maneira de ler o mundo e de o explicar. Ainda que o meu Spielberg preferido não seja propriamente este, vestido de solenidade e com a ambição de fazer grande, é inegável estarmos perante um filme definitivo, que recusa a biografia de um dos mais importantes presidentes da história da nação americana, para, na sua vez, nos dar um retrato profundo de como a política se move entre a indignidade e a nobreza, e de como os grandes estadistas são aqueles que sabem navegar por sobre essa indignidade e, sem mácula, se agigantam através de uma visão do mundo, dos homens, da sua história e do seu futuro.

Spielberg faz um filme muito teatral (como a política), fechado em espaços obscuros e cheios de fumo, com um ritmo lento, e diálogos riquíssimos, cheios de subterfúgios e subtilezas, que contam, eles próprios, a matéria de que são feitos os fios de uma grande nação. Daniel Day-Lewis compõe uma personagem ao mesmo tempo cativante e intimidatória, transparente e misteriosa, ardilosa e visionária. Como, de resto, o são todos os grandes estadistas da história.