January 29th, 2013

rosas

django unchained 5*

Não há muito a dizer acerca de Django Unchained, a não ser que é mais do mesmo, e que isso é muito bom: o sistema Tarantino a funcionar na perfeição e em full power. Como sempre, a escrita é soberba, o texto é um gozo de ser ouvido ou lido; o filme é meticulosamente construído, e, como sempre acontece, uma das coisas que dão um prazer imenso nos filmes do Tarantino, é que nós vemos perfeitamente como a coisa está construída. Os argumentos e as narrativas de Tarantino não são ardilosos, não são feitos para nos prender em sortilégio, mas sim para nos seduzirem e cativarem com as suas habilidades, que são sempre muito assumidas, estão à vista de toda a gente.

Tarantino é um virtuoso, claro, mas nunca se esquece de que o objetivo de um filme, dos seus filmes pelo menos, é entreter as pessoas contando-lhes uma história, e fazendo dessa arte de contar uma arte maior. Depois são, como se sabe, filmes de cinéfilo, de quem viu muitos filmes e se deixou maravilhar por eles. E de quem lhes quer bem: o hábito de recuperar velhas glórias do cinema é também uma forma de homenagear, sobretudo os géneros menores como o western spaghetti, mas também de construir a cadeia de referências que dão muita densidade ás narrativas.

Assim se explica, por exemplo, o facto de Tarantino ter ido buscar uma antiga vedeta como Franco Nero, que foi uma estrela de cinema sobretudo do cinema europeu dos anos 60 e 70, e que entrou em incontáveis fitas de cóbois nesse tempo em a tradição do género era mantida viva em filmes série Z feitas na Europa, tendo feito de Django, no filme de Sergio Corbucci, com o mesmo nome, de 1966.


Já depois de escrever este texto, li esta frase do João Lopes, no seu blog Sound + Vision (link), este parágrafo, que acho muito feliz, sobre o cinema do Tarantino em geral, e este Django em particular:
”Django Libertado consegue a proeza estética e política de virar o western clássico do avesso, inventando um herói cuja pele já não é branca, ao mesmo tempo que reafirma a liberdade conceptual do próprio gesto cinematográfico. Para Tarantino, como para muitos artistas contemporâneos, não há fronteira entre a convocação do passado e a fruição presente do espectáculo. O seu cinema vive tanto da consciência feérica do sangue como do sofisticado contraponto da palavra falada. Shakespeare não fez outra coisa, mas também não creio que Tarantino concorde com a sua evocação... Entre as virtudes dos grandes cineastas, a simpatia mediática não é obrigatória.”