January 28th, 2013

rosas

great expectations

coverArt.ae9a6a.225x225-75

Acabei de preencher uma das minhas (muitas e abissais) lacunas literárias, que era nunca ter lido nada de Charles Dickens. E, como é evidente, tinha muita vontade de experimentar. Escolhi o Great Expectations, e já tinha o livro praticamente desde que comprei o kindle, pois foi dos primeiros livros gratuítos que descarreguei. Não só o li em inglês,como ainda por cima numa edição do século XIX, e com uma grafia que em muitos casos reproduz a oralidade das personagens. Ou seja, foi uma aventura, que demorou quase um mês, e acho que o facto de ter lido no kindle ajudou, não só porque a leitura é mais fácil e rápida, mas porque o dicionário também é uma ferramenta muito prática (apesar de nunca como agora o próprio dicionário ter respondido tantas vezes que não encontrava a palavra).

Gostei imenso do livro. Há qualquer coisa de exemplar e paradigmático neste romance de crescimento, que segue as aventuras e desventuras de um jovem provindo de um meio pobre, a quem as circunstâncias da vida, e as que ele próprio criou ou favoreceu, ofereceu grandes expectativas (que acho que deveria ser a tradução correcta do título, e não as grandes esperanças, com que é normalmente traduzido).

O facto de ter sido escrito originalmente como um folhetim de publicação periódica (como de resto, tantos dos grandes romances do século XIX, nomeadamente em Portugal), dá-lhe caracteristicas muito especiais. Por um lado desequilibra um pouco a narrativa, torna os capítulo desiguais, mas a vantagem é que os capítulos são normalmente curtos, e essa desequilíbrio também significa maior diversidade: há capítulos mais aventureirescos, outros mais reflexivos, há outros que são quase integralmente escritos em diálogo, e o Charles Dickens era um mestre nos diálogos, foram a minha parte preferida da narrativa, diálogos ricos, muito vivos, cheios de intensidade e significado.

Como todos os grandes romances, Great Expectations contém muitos níveis de leitura e, como um número relativamente reduzido de personagens, é capaz de abordar e abarcar uma série de situações e dilemas que estão muito na essência da condição humana, quer aquelas que fazem de nós pessoas dignas e nobres, quer as outras em que nos revelamos mesquinhos e medíocres.

É impossível não nos cativarmos pela personagem de Pip, o narrador e herói da história. Como está sempre presente, e acompanhamos sempre o seu pensamento e a sua ação, é impossível não o entendermos e, mais, identificarmo-nos com ele. Pip é das grandes personagens literárias da história da literatura anglo-saxónica e mundial. Mas também adorei a personagem de Joe, o ferreiro, o seu amigo e protector na infância, e que deve ser dos personagens mais benevolentes que já vi.