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reality 5*
rosas
innersmile
Para falar de Reality começo por fazer uma declaração de interesses: sou fã do cinema italiano, em particular da comédia à italiana que teve o seu auge nos anos 60 (Dino Risi, Mario Monicelli ou Ettore Scola, entre outros), e de que Fellini constitui simultaneamente o zénite, mas também uma classe completamente aparte. Estava, desde que comecei a ver as apresentações no cinema e os clips na net, ansioso para ver esta história sobre um vendedor de peixe que um dia decide perseguir a ilusão de participar numa edição do Big Brother.

Claro que um filme assim só pode ser sobre a televisão, não propriamente sobre o meio em si e as suas regras de funcionamento, mas sobre o poder avassalador que ela tem sobre aqueles que, no sofá das suas salas, se rendem ao seu poder de criar ilusões. Há de resto um pormenor que eu achei fabuloso, e que é facto de nas suas deslocações a Roma, para participar nos castings do programa, Luciano, assim se chama o personagem principal do filme, ir aos estúdios da Cinecittá, a mítica fábrica do cinema italiano: a televisão tomou conta do cinema, invadiu o seu território, e a cidade dos sonhos é agora a cidade das ilusões vendidas em horário nobre.

Na boa tradição felliniana, Reality está cheio daquelas personagens que roçam o grotesco. Mas, como os grandes mestres, a acidez da análise do realizador Matteo Garrone foca-se na tragédia (política ou social) vivida pelos personagens, porque o olhar que dedica às próprias personagens, à sua natureza ou condição, é eivado de ternura, é um olhar carinhoso que as salva da tragédia que as destrói.

O filme consegue sempre resistir à tentação de ser um laboratório, de tratar as personagens como ratinhos de experiências sociais. No entanto não deixa de provocar um certo calafrio ver como aquela jaula é tão parecida com a nossa: os mesmos centros comerciais, a mesma mania dos casamentos cheios de variedades, os mesmos programas de televisão, a mesma infantilização dos prazeres da vida, a moda de toda a gente se vestir como se fossemos todos teenagers. Há momentos no filme em que quase nos esquecemos de que estamos a ver outra gente, de tal forma ela se parece com a nossa, com a que ocupa precisamente os mesmos espaços televisivos que se dedicam a injectar doses maciças de ilusão em pessoas normais, colocando-as em seguida nas passadeiras vermelhas sob a potente luz dos holofotes e das camaras, para logo a seguir as abandonar no caixote do lixo da grelha de programas da próxima temporada.

Postas as coisas assim, Reality parece um filme depressivo. E é-o, de facto, mas apenas a um nível intelectual, digamos assim. As personagens são tratadas com humor e ternura, o olhar do filme sobre a cidade onde decorre a acção, Nápoles, é grandioso como o destino da arquitectura imperial, há uma explosão de energia que transborda quase de cada plano, de cada fotograma.

Contribui muito para o êxito do filme o trabalho do actor Aniello Arena, que cria um personagem muito físico, com um olhar puríssimo, como se visse as coisas sempre pela primeira vez. Há, de facto, e como dizem os jornais, qualquer coisa de Totó e de Robert de Niro na maneira como este actor anima a personagem de Luciano. Vale a pena referir que Aniello é um actor sui generis, já que está encarcerado numa prisão de alta segurança pela prática de crimes ligados ao crime organizado. Cumpre uma pena de 40 anos, dos quais já decorreram 20. Desenvolveu o seu talento de actor a trabalhar nos grupos de teatro prisionais. É impossível não nos lembrarmos do filme dos irmãos Tavianni, Cesare Deve Morire, que vimos há poucos meses, e que decorria em ambiente prisional com um grupo de prisioneiros, verdadeiros, condenados a penas de prisão maior, alguns deles para toda a vida. Não sei se há aqui alguma lição, mas é tentador acreditar no poder libertador da arte e da cultura. Talvez seja essa, de certo modo, a mensagem que o próprio filme de Matteo Garrone nos dá.
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