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zero dark thirty 4*
rosas
innersmile
Gostei bastante do Zero Dark Thirty, da Kathryn Bigelow, sobretudo porque o achei um filme muito estimulante, que levanta muitas questões e oportunidades de debate. E havia tanta coisa que eu queria abordar sobre o filme, que não sei se sou capaz de me organizar.

Começar por dizer que se trata de um filme muito seguro, seco, firme, sem gordura que se veja, uma narrativa com mais fibra do que músculo. Estruturalmente está dividido em três partes. A primeira, e que tem desencadeado muita polémica nos EUA, refere-se aos anos a seguir ao 11 de Setembro (o filme começa com gravações audio de chamadas telefónicas reais, feitas por vítimas dos ataques terroristas), era Bush portanto, e foca-se sobretudo na questão da utilização da tortura nos interrogatórios que a CIA fez a prisioneiros relacionados com a Al Qaida. Nos EUA as opiniões dividem-se, com muita gente a acusar Bigelow de estar de algum modo a pactuar com aqueles métodos, e a branqueá-los com o argumento de que foram necessários e que de algum modo viabilizaram a caça ao homem, no caso a Osama Bin Laden. Bigelow e o seu argumentista defendem-se, dizendo que não há nada no filme que afirme o sucesso desses métodos.

A segunda parte do filme aborda já os anos da presidência Obama, em que o eixo da caça ao homem deixa de ser os interrogatórios aos prisioneiros, e passa a ser o jogo do gato e do rato, de espionagem e colecção de pistas, juntando peças de puzzles diferentes para tentar chegar a alguma conclusão. De certo modo este é o segmento mais liberal do filme, que põe em contraponto as hesitações, os recúos, e sobretudo o desnorte quer dos decisores políticos, quer dos próprios operacionais da CIA. Depois de, na primeira parte, Maya, a personagem principal e verdadeiro motor do filme, da sua história e da narrativa, ter feito um pouco o contraponto moral da utilização da tortura, aqui assume-se como a heroina solitária, que acredita, e nunca larga a presa, persisitindo numa investigação que muitos julgavam condenada ao fracasso.

A terceira parte do filme é acção pura, e reconstrói, ao que li com um rigor milimétrico, a operação levada a cabo pelos NavySeals, de ataque ao compound situado numa cidade pequena do Paquistão, e a eliminação física de Bin Laden. E é aqui que realmente a Kathryn Bigelow mostra que é uma grande realizadora de filmes de acção. Até porque não é muito fácil conciliar a fidelidade ao rigor dos factos históricos com a necessidade de criar a tensão e a carga emotiva que dão eficácia às sequências de acção, uma vez que têm de ficar de fora os recursos habitualmente utilizados pelos realizadores deste tipo de filmes, nomeadamente a espectacularidade dos tiroteios e das explosões.

Em todos estes momentos o filme é de uma enorme eficácia. Desenvolvido quase como uma reportagem, com subtítulos que tanto se referem a momentos temporais ou a localizações geográficas, como a núcleos temáticos, que funcionam quase como aquelas caixas que isolam uma determinada matéria numa grande reportagem de imprensa, o filme nunca se dispersa, nunca tropeça em si próprio nem na história que quer contar, nunca se desvia ou perde tempo. É um filme muito económico, tudo faz sentido e tudo é utilizado para fazer a narrativa progredir.

É curioso porque de uma banda o filme poderia ser quase um documentário, ou uma reportagem daquelas que passa no programa Panorama da BBC ou no Sixty Minutes. Só interessam os factos e a investigação sobre eles. Mas nem por um segundo nos esquecemos de que o que estamos a ver é um filme, com a linguagem própria do cinema, com uma narrativa que é especificamente cinematográfica e inserida e devedora de uma determinada maneira, americana, made in Hollywood, de fazer filmes.
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