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argo 4*
rosas
innersmile
Aproxima-se uma certa noite de final de fevereiro, e o tempo que eu passo nas salas de cinema aumenta consideravelmente. Este fim de semana consegui ver 3 filmes: Reality, do italiano Mateo Garrone, Zero Dark Thirty, da Kathryn Bigelow, e Argo, do Ben Affleck. Entre estes dois últimos há muitos pontos de contacto, em termos temáticos, apesar de se referirem a acontecimentos passados em séculos, e em momentos históricos, muito diferentes. Mas entre os três, curiosamente, há em comum o facto de as respectivas bandas sonoras serem assinadas pelo Alexandre Desplat, que é, actualmente, provavelmente o mais prolixo compositor de música para filmes, e bastante transversal nas cinematografias para que trabalha.

Reality e Zero Hour Thirty precisam de textos um pouco mais reflexivos, por isso podemos já despachar o Argo, que é, dos três, o filme mais convencional, o que lhe dá alguma vantagem nas corridas aos prémios do cinema, como já começou a acontecer nos Globos de Ouro. Gostei bastante do filme, achei-o muito bem feito, com bom ritmo e um bom domínio da narrativa. O ponto mais fraco do filme é também o seu maior trunfo, que é o facto de ceder demasiado às regras do thriller, carregando nas cores da tensão dramática e do suspense. Não que isso seja mau em si, o problema é que fazer com que o filme resulte melhor a este nível implica sacrificar a análise política e histórica que o filme também pretende ser (admito que neste aspecto o filme perca por comparação com o de Kathryn Bigelow, que consegue resolver melhor este equilíbrio). O que, de resto, é assumido, logo no início, quando uma legenda anúncia que o filme é “baseado” numa história verdadeira (só a título de exemplo, a personagem do produtor é inteiramente ficcional, e por isso não aparece no genérico final, quando se faz o follow-up da crise dos reféns, e quando se faz a comparação entre as personagens reais e os actores que as desempanham).

Para além de demonstrar mão segura enquanto realizador, Ben Affleck assume-se igualmente como um cineasta empenhado politicamente, disponível para contribuir para a reflexão que o cinema liberal vem fazendo dos anos de chumbo da América pós 11 de Setembro. Apesar do filme se confinar, como disse, às regras do thriller, é impossível não assinalar que o que aqui se conta, e num tom amargo em relação à política externa norte-americana, é de certo modo a história de como tudo, e onde, começou.

Há uma piada engraçada no filme, quando se diz que o John Wayne acabou de morrer e as coisas já estão a correr mal para os Estados Unidos. O que não deixa de ter a sua ironia: na boa tradição de Hollywood, quando o sistema falha, está na hora de entrar o herói solitário que salva tudo, e o filme não deixa, desse modo, de enaltecer o heroismo individual, o que, no entanto, está mais próximo de uma certa perspectiva conservadora.

Só mais uma notinha para chamar a atenção para o símbolo da Warner Brothers no início do filme, que era o que a companhia usava na altura em que decorre a história. Não tem importância, é certo, mas mostra o cuidado que se põe nestas produções e sempre é uma ocasião para os movie buffs mais velhos matarem saudades.
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