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te deum + the time machine
rosas
innersmile
Como já aqui referi, fui no domingo ao Porto, para ir à Casa da Música assistir à apresentação do Te Deum de António Teixeira, pela Orquestra Barroca e Coro da Casa da Música. Só a perspectiva de ouvir interpretado ao vivo este Te deum já era uma oportunidade maravilhosa, de tal modo a música barroca de António Teixeira é exaltante e celebratória, daquela que nos faz lembrar anjos e querubins e altares magníficos de talha dourada.

Mas esta apresentação da Casa da Música, com direcção musical do entusiasmado e entusiasmante Laurence Cummings, teve ainda a mais-valia de ser apresentada com um dispositivo cénico, com direcção de Martin Parr, que realçava o aspecto celebratório da música. Esta componente visual assentava, essencialmente, nos próprios participantes, nos músicos da orquestra e nos elementos do coro, sem esquecer o maestro, na forma como se disponham em palco, formando várias pequenas unidades, e na disposição dos estrados onde os solistas faziam as suas partes. Além disso contava ainda com a participação de seis actores, que formavam três casais de diferentes idades, da infância à velhice, que iam evoluindo à medida que se desenrolava a peça musical.

O início do concerto foi espectacular, muito intenso e arrepiante, e marcou todo o concerto. O maestro Laurence Cummings entrou em palco juntamente com os músicos, mas sem os elementos do coro. Dirigiu-se para um pódio central no palco e entoou o primeiro verso em cantochão: Te Deum Laudamus. E a seguir deu indicação para os elementos do coro, espalhados pelos corredores laterais da sala, começarem a cantar o verso seguinte: Te Dominum Confitemur.


Antes do concerto, ainda deu para ir espreitar no edifício da EDP, que fica mesmo ao lado da Casa da Música, uma exposição do fotógrafo Edgar Martins, acerca da qual eu tinha lido uma notícia, creio que no Público. Com o título The Time Machine, as fotografias expostas, quase todas em grande formato, foram realizadas em centrais hidro-eléctricas portuguesas. Dois aspectos interessantes para que o programa chama a atenção: apenas numa das fotos se vê água; e em todas as fotos foi necessário recorrer a iluminação artificial, o que não deixa de ser paradoxal, dado tratar-se de centrais produtoras de energia eléctrica em que a força motriz é precisamente a água em movimento.

O trabalho do Edgar Martins é, do ponto de vista estético, bastante interessante: fotografias despojadas, mas muito carregadas quer visualmente quer do ponto de vista simbólico. Apesar de não aparecer a figura humana, a sua presença é sempre muito forte, e numa dupla vertente. primeiro porque, como é evidente, se trata de fotografias civilizacionais, no sentido que testemunham a intereação do homem com o tempo; e, por outro lado, porque há sempre como que uma componente animista, quase como se o objecto das fotografias sofresse alguma espécie de antropomorfismo. Pelo menos nos trabalhos que conheço melhor, estes desta série, e os da série Ruins of the Second Gilded Age, e que esteve, aqui há uns anos, na origem de uma valente polémica acerca do tratamento digital das imagens, e que levou, inclusivamente, o New York Times, que tinha publicado as fotos na sua revista, a retirá-las do site.


Um concerto magnífico, uma exposição interessante, um belo de um lanche gourmet e um jantar num café típico do Porto, tudo regado com boa companhia. Ou seja, devia haver mais domingos assim.