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vertigo 5*
rosas
innersmile
Que maravilha, poder voltar a ver Vertigo no ecrã grande de uma sala de cinema. Há mais de trinta anos, no verão não me lembro se de 80 ou de 81, vi uma série de filmes de Hitchcock, entre eles este A Mulher Que Viveu Duas Vezes, no Tivoli, que era a mais bonita sala de cinema da cidade, e onde hoje há uma loja de pronto-a-vestir! Apesar do Avenida ser mais concorrido, e do Gil Vicente passar melhores filmes, o Tivoli era a única sala que, à dimensão da cidadezinha de província que Coimbra era (hoje só continua a ser uma cidadezinha provinciana), fazia lembrar os grandes cinemas das grandes cidades, não só pelos traços arquitectónicos (felizmente a fachada do belo edifício ainda permanece), mas porque tinha plateia, tribuna e balcão, e um quiosque de revistas à entrada (nesse aspecto o Avenida ficava a ganhar, porque tinha bar).

Vertigo foi nomeado, numa recente votação da revista britânica de cinema Sight & Sound, o melhor filme de todos os tempos. Estas escolhas valem sempre o que valem, mas esta pelo menos teve a vantagem de trazer Vertigo de volta aos cinemas. Apesar de não ser o meu filme preferido de Hitchcock (ou um dos três ou quatro filmes de Hitchcock que são, à vez, o meu filme preferido de Hitchcock), é indubitavelmente uma obra-prima, e redescobri-lo no grande ecrã, depois de anos e anos a revê-lo em pequeno formato, devolve-nos, com juros, o prazer de o confirmar.

Como disse no final uma amiga, já não se fazem filmes assim, com este fulgor narrativo, que nos transmite visualmente todas as informações importantes. O filme quase que poderia não ter diálogos que, parece-me, mesmo assim perceberíamos o fundamental dele, de tal forma o essencial do filme nos é transmitido através das imagens, dos planos imaginativos e complexos, das sequências que têm a raríssima capacidade de nos arrastar para dentro da intriga.

Um dos aspectos sempre fascinantes de Hitchcock, como acontece neste Vertigo, é a dimensão artesanal dos seus filmes. Nada aqui é industrial, nada obedece a uma fórmula. Cada frame, cada sequência parece ser desenhada à mão de propósito para esta história, e por isso a assinatura do realizador está presente em cada momento, e não apenas quando, como aqui acontece logo numa das sequências iniciais, o próprio Hitchcock atravessa o plano e aparece no filme, naquela que era uma das suas imagens de marca.

Mais do que uma história de enganos, Vertigo é um filme sobre uma obsessão: misteriosa, fantasmagórica e fatal. Todos os atributos de Hitchcock são convocados para aquela que é uma das minhas sequências favoritas do filme, em que essa obsessão se estabelece: conforme combinado com Elster, um antigo conhecido, Scottie, o protagonista, desempenhado pelo imprescindível James Stwart, espera no bar do restaurante Ernie a oportunidade de identificar Madeleine, a mulher de Elster, aproveitando a ocasião do casal ir jantar antes da ópera. A câmara mostra o exterior do restaurante, e passa para o interior no momento em que Scottie vira a cabeça para procurar Madeleine. A câmara segue o olhar de Scottie e percorre a sala de jantar do restaurante, dominada pelo vermelho brocado das paredes, os tons contrastantes a preto e branco das roupas, e o barulho das conversas e do tilintar de copos e talheres. Então a câmara pára, os sons ambientes suspendem-se, e começam-se a ouvir as cordas da banda sonora de Bernie Herrmann. Ao fundo, o verde do vestido de Madeleine atrai a câmara, que se aproxima lentamente sob o apelo e a vertigem das costas desnudadas e do cabelo loiro ofuscante da Kim Novak. Quando a câmara volta a mostrar Scottie, sabemos já, pela perturbação do seu olhar, que o sortilégio resultou, e que o ex-polícia que sofre de vertigens está definitivamente prisioneiro do mistério de Madeleine.