January 10th, 2013

rosas

richard blanco

Em 1961 o presidente John Kennedy convidou o poeta Robert Frost para dizer um poema na sessão inaugural do seu mandato, ou seja, na cerimónia que decorre em Washington, na escadaria do Capitólio, onde o presidente eleito faz o seu juramento e toma posse. Frost, que é autor de um dos meus poemas preferidos (Stopping By Woods on a Snowy Evening), tinha então 86 anos, e escreveu um poema especialmente para a ocasião, intitulado Dedication. No dia da cerimónia, as difíceis condições atmosférias e a fragilidade própria da idade impediram-no de ler o poema, e Frost optou antes por dizer de cor um poema já antigo, The Gift Outright.

Mais de trinta anos depois, em janeiro de 1993, Bill Clinton decidiu retomar o gesto de Kennedy e convidou a poeta e activista negra Maya Angelou, que recitou o seu poema On The Pulse of The Morning na sessão inaugural do primeiro mandato do presidente. Na do segundo, Clinton convidou o poeta Miller Williams para ler o seu poema Of History and Hope (só por curiosidade, aprendi na wikipedia que o poeta é pai da Lucinda Williams, uma cantora folk de que gosto bastante).

Como parece que só os presidentes democratas têm esta iniciativa, a tradição foi retomada por Barack Obama que, em janeiro de 2009, escolheu a poeta e professora universitária Elizabeth Alexander para ler na sua sessão inaugural o poema Praise Song for the Day. E para a sessão inaugural do seu segundo mandato, que irá decorrer no próximo dia 21, soube-se agora que a escolha de Obama recaiu sobre o poeta Richard Blanco, para ler um poema escrito propositadamente para a cerimónia.

Como não conhecia este escritor, fui à procura de informações sobre ele, e descobri que é de ascendência cubana, apesar de ter nascido em Espanha, pouco tempo depois de os pais se terem exilado em Madrid. Com pouco mais de um mês foi para os Estados Unidos, onde a família se estabeleceu, em Miami. Além disso, Blanco é um homossexual assumido, vivendo no Maine com o seu marido. Tem um site pessoal (link: www.richard-blanco.com), onde, entre muitas outras coisas, como fotos e videos, disponibiliza alguns dos seus poemas (inclusivamente com gravações do próprio a recitá-los).

Gostei imenso de alguns dos seus poemas, nomeadamente de um, intitulado We’re Not Going To Malta, inspirado na sua primeira viagem à Europa, e que achei muito intenso e de um humanismo quase pungente, reflectindo perplexidades e interrogações que, acho eu, já toda a gente se pôs (pode ser lido neste link). Mas escolhi para pôr aqui um outro, do seu último livro de poemas, que achei lindíssimo, solar e melancólico ao mesmo tempo, de um lirismo muito grande e com um toque indisfarçável de sensualidade.

É quase inacreditável pensar que o homem que escreveu estes versos vai ler um poema na cerimónia de inauguração de um presidente dos Estados Unidos da América. E não pode deixar de ser igualmente uma enorme homenagem à pessoa que o escolheu, o presidente Barack Obama, que assim demonstra mais uma vez que há grande homens, e depois há Homens Grandes.


MAYBE

for Craig

Maybe it was the billboards promising
paradise, maybe those fifty-nine miles
with your hand in mine, maybe my sexy
roadster, the top down, maybe the wind
fingering your hair, sun on your thighs
and bare chest, maybe it was just the ride
over the sea split in two by the highway
to Key Largo, or the idea of Key Largo.
Maybe I was finally in the right place
at the right time with the right person.
Maybe there'd finally be a house, a dog
named Chu, a lawn to mow, neighbors,
dinner parties, and you forever obsessed
with crossword puzzles and Carl Young,
reading in the dark by the moonlight,
at my bedside every night. Maybe. Maybe
it was the clouds paused at the horizon,
the blinding fields of golden sawgrass,
the mangrove islands tangled, inseparable
as we might be. Maybe I should've said
something, promised you something,
asked you to stay a while, maybe.