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um grito parado no ar
rosas
innersmile
Fui ontem à Oficina Municipal do Teatro ver, no último dia da temporada, a peça Um Grito Parado no Ar, pelo Teatrão. E em boa hora, pois gostei bastante. Da autoria do brasileiro Gianfrancesco Guarnieri, com direcção de António Mercado, e com o elenco habitual da companhia, a peça focaliza-se numa sessão de ensaio de uma companhia de teatro que prepara um espectáculo entre enormes dificuldades: a cada passo o ensaio é interrompido por credores que vêm buscar material não pago, há tensões entre os protagonistas, que explodem a cada momento, muita coisa corre mal e ameaça a possibilidade de estreia, daí a dez dias.

Escrita em plenos anos setenta, durante a ditadura militar brasileira, a peça tem uma forte componente social, que esta produção adapta muito bem para a profunda crise que vivemos actualmente em Portugal. Mas tratando-se de um texto de meta-teatro, para mim sempre foi mais interessante a componente da peça que tem a ver com a própria dinâmica do ensaio, e com os momentos intensos, de comédia ou de drama, que a cada momento surgem a partir do próprio jogo dos actores-protagonistas.

Para além do interesse do texto, a encenação explora muito bem a ambiguidade que se estabelece entre actores e personagens-actores, permitindo que por vezes os diversos níveis dramatúrgicos se esbatam e confudam. Para quem conhece razoavelmente os actores do Teatrão, o jogo é ainda mais aliciante, pois estende-se à própria companhia, ao seu elenco e ao próprio espaço do teatro.

Um dos elementos mais conhecidos desta peça é um samba da autoria de Toquinho e do próprio dramaturgo. Os do Teatrão conseguiram fazer uma belíssima adaptação para fado desta composição, utilizando-a para construir um final muito emotivo e empolgante.
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