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tradição
rosas
innersmile
Foto0712

"Havia certas rotinas, na sua maneira de viver, que não condiziam com os hábitos tradicionais das famílias e mesmo que vivesse nos dias que hoje correm, seria assim. Era a sua maneira de ser e de entender a vida e a vida das pessoas no mundo. O dia de natal, por exemplo, não apresentava nenhuma diferença de outro dia qualquer do ano. Não se enfeitava a casa, não havia presépio nem «espírito natalício». O costume, nesse dia, era lanchar em casa de sua mãe.
Lá íamos.
Comprava-se um pequeno bolo-rei numa pastelaria qualquer, apanhávamos o elétrico, descíamos a rua de Buenos Aires, caminhávamos um pouco, ele batia três repenicadas, a porta da rua abria-se, abraços e beijos. Sentávamo-nos então, com amor e sem pressa, à volta da mesa do lanche. Sem haver nenhuma troca de presentes a assinalar a data, era costume eu receber nesse dia - e recebi durante anos e anos sem fim - o novo exemplar do Almanaque Bertrand referente ao novo ano que daí a uma semana chegaria.
Não havia, pois, comemorações especiais neste ou naquele dia. Não era uma questão económica. Era a consciência plena e a aceitação e perceção dessa mesma vontade da consciência. Também não impunha nada a ninguém. Explicava por palavras simples e frases transparentes por que não fazia isto ou aquilo. O seu próprio dia de aniversário era um dia igual aos outros todos, sem festejos nem comemorações. Poderá parecer estranho tudo isto, na sociedade em que vivemos, onde todos cumprimos com «obrigações» indistintas e muitas vezes desinteressantes. Onde se comemora tudo e nada a maior parte das vezes sem qualquer convicção, apenas porque se deve comemorar ou faz parte ou é costume.
Nunca houve, o que se chama, tradição."


- Cristina Carvalho - RÓMULO DE CARVALHO / ANTÓNIO GEDEÃO: PRÍNCIPE PERFEITO (Editorial Estampa)

dona canô
rosas
innersmile
Eu não sou místico, mas há alguma coisa de mágico na circunstância de Dona Canô ter, aos 105 anos de idade, feitos no passado mês de setembro, escolhido o dia de natal para nos deixar (como Chaplin).

É difícil resistir à tentação de ver em Dona Canô apenas a mãe de dois dos maiores cantores populares brasileiros, e dois em particular de quem eu gosto mais do que consigo dizer. Mas Dona Canô era por direito próprio uma figura respeitada na cultura popular (e social, e política) do Recôncavo Baiano, e como ela própria diz num dos maravilhosos e comoventes clips que estão disponíveis no YouTube, o que apreciava nos filhos era o facto de eles serem “ótimos filhos, amigos, irmãos, parentes”. Era isso que lhe dava orgulho.

Escolhi, para homenageá-la, um clip que está há muito na minha pasta de favoritos no YouTube, e que mostra bem que não era Dona Canô que era mãe de Caetano, mas sim Caetano Veloso é que é filho de Dona Canô.