?

Log in

No account? Create an account

bom natal
rosas
innersmile
Fiz este clipezinho com imagens de uma gambiarra de natal comprada numa loja chinesa que pus na janela da minha sala, e uma faixa de um disco já muito antigo (quase 20 anos, caramba!) que o Pedro Burmester e o Mário Laginha gravaram ao vivo. O tema chama-se Brazileira, é da autoria de um compositor francês do século passado, Darius Milhaud. Ok ok, eu sei que a música não é de natal, mas como o autor também não é brasileiro apesar do título do tema, e a gambiarra é made in china, fica assim uma espécie de fake de fake de fake.

A única coisa que não é fake, são os votos de BOM NATAL que eu aproveito para desejar a todos os amigos e leitores aqui do meu diário.





Só uma notinha para dizer que encontrei no YouTube algumas versões belíssimas deste tema de Milhaud para dois pianos, mas nenhuma me pareceu tão alegre e tão 'brasileira', e tão no ponto, como esta do Burmester e do Laginha.

são josé a caminhar
rosas
innersmile
Gosto de fazer, aqui no innersmile, inventários anuais dos livros que li, dos filmes que vi, dos espectáculos e concertos a que assisti e da música que ouvi. Sobretudo porque esses inventários me ajudam a relembrar todas essas coisas que fiz e a racionalizar sobre aquelas que ficaram comigo e aquelas que foram absorvidas pela poeira da erosão dos dias. E já estou a preprarar esses inventários para os pôr aqui, nos próximos dias.

Mas não costumo, acho eu, se bem me lembro, fazer balanços pessoais. Mas este ano que está prestes a terminar foi um ano diferente, e merece que eu faça aqui uma referência a três acontecimentos que marcaram a minha vida. Os três aconteceram num período de tempo relativamente curto, mas tiveram um impacto muito grande, e que perdura e perdurará.

O primeiro desses acontecimentos foi a entrada na minha vida de uma senhora que contratei para tomar conta dos meus pais. Nos últimos anos, desde 2009 até este ano, a degradação deles, por causa da doença e da velhice, foi muito grande, e a minha vida foi muito desgastante: os sobressaltos, as preocupações, os sustos, foram quase constantes. Além disso sentia, aliás tinha a certeza, de que a situação deles se estava a degradar por eu não poder cuidar deles com a atenção necessária, mas também sentia sobre mim um peso muito opressor por sentir que a minha tranquilidade tinha desaparecido e a minha vida era uma aflição permanente. A alternativa mais plausivel era pô-los num lar, mas além de isso me provocar uma sensação de abandono (deles e meu), sempre temi que isso significasse o seu fim. Com as economias que o meu pai fez durante a sua vida contratei uma senhora que está com eles 24 horas por dia. Estão bem tratados, passaram um ano relativamente calmo, a saúde mental do meu pai melhorou, a situação cardíaca e respiratória da minha mãe esteve controlada, e tudo isso resultou num imenso alívio para mim: por saber que estão bem tratados, e também por poder respirar um pouco, ter mais tempo disponível para mim (mesmo que seja só para estar a aboborar no sofá a ler), não andar o tempo todo roído pelos remorsos e consumido pela preocupação.

Mas como a vida dá com uma mão e tira com a outra, no princípio de maio (no dia primeiro de maio, à noite, para ser mais preciso), comecei a urinar sangue, sintoma, confirmado poucos dias depois, de que tinha um carcinoma na bexiga. Caraças, quase trinta anos depois de ter tido um teratoma que quase me tirou a vida e que demorou dois anos a ser debelado, o cancro voltava a espalhar a sua baba malévola na minha vida. Senti um profundo desânimo, descobri que ainda não estava emocionalmente curado de todo o sofrimento que os tratamentos de cobalto-terapia e de quimioterapia me provocaram quando tinha pouco mais de vinte anos. Mas se em poucos dias tinha um diagnóstico, ainda em menos a situação resolveu-se com uma intervenção cirúrgica que foi, bem vistas as coisas e apesar dos incómodos, uma brincadeira de crianças comparado com o que eu tinha passado da outra vez. E tive um bambúrrio de sorte: como o carcinoma foi diagnosticado num período muito precoce nem precisei de fazer mais tratamentos. Apenas tenho de fazer controlo durante uma série de tempos: já fiz o primeiro em setembro, vou fazer outro em abril e depois por aí fora durante já não sei quantos anos, 5 ou 10, não me lembro. Mas se é verdade que tudo se resolveu bem depressa, há uma certa gravitas que permaneceu: o cancro afinal pode voltar, e volta, e o mesmíssimo azar pode nos bater à porta duas vezes; e de alguma maneira fiquei com o pressentimento (e confesso que com o medo-pânico) de que vai voltar um dia - afinal, não há duas sem três.

Mas se a vida tira, a vida dá! E nesse mesmo mês de maio nasceu a minha sobrinha-neta, no Algarve, e que eu apenas conheci em julho, quando levei os meus pais lá abaixo para conhecerem a bisneta. Há momentos fulgurantes, em que os astros parecem conjugar-se para um festival imenso, e eu vivi um desses, quando, pouco tempo depois de chegar a casa do meu sobrinho, a mulher dele trouxe a bébe e pô-la ao colo da minha mãe, que estava sentada ao meu lado. A minha mãe segurou a bébe de bruços, voltada para mim, e eu inclinei-me para a frente, a falar com ela e a fazer-lhe aquelas fosquinhas que a gente faz aos bébes. Foi aí, nesse preciso momento, que aconteceu: a bébe riu-se para mim e eu fiquei de imediato profundamente apaixonado por ela, completamente rendido à bébe e a todo o amor que ela conseguiu fazer derramar a um velho empedernido como eu. E o melhor é que acho que o amor é correspondido, e a bébe dá-se muito bem comigo e está muito à vontade. Sim, porque entretanto não perco uma oportunidade de a ir visitar e já fui mais vezes ao Algarve nestes últimos meses do que tinha ido durante muitos anos. Este amor que eu sinto pela minha bébe é a melhor coisa que me aconteceu, enche-me de felicidade e alimenta-me os dias. Foi, definitivamente, a melhor coisa que me aconteceu este ano. E está seguramente no top dos tops das coisas boas que a minha vida me deu, e que, já agora, este ano completou as cinco décadas.




Escrevi este texto a ouvir uma coisa maravilhosa que descobri há poucos dias,e que tenho ouvido apenas on-line. Chama-se O Experimentar 2: O Sagrado e o Profano, e é um projecto magnífico, que parte da música tradicional dos Açores para construir uma música profunda, intensa e, ao mesmo tempo, muito íntima e universal. No momento em que acabei de escrever começou a tocar o tema São José a Caminhar, que, além do mais, tem tudo a ver com a noite de hoje. Um arrepio.