December 24th, 2012

rosas

bom natal

Fiz este clipezinho com imagens de uma gambiarra de natal comprada numa loja chinesa que pus na janela da minha sala, e uma faixa de um disco já muito antigo (quase 20 anos, caramba!) que o Pedro Burmester e o Mário Laginha gravaram ao vivo. O tema chama-se Brazileira, é da autoria de um compositor francês do século passado, Darius Milhaud. Ok ok, eu sei que a música não é de natal, mas como o autor também não é brasileiro apesar do título do tema, e a gambiarra é made in china, fica assim uma espécie de fake de fake de fake.

A única coisa que não é fake, são os votos de BOM NATAL que eu aproveito para desejar a todos os amigos e leitores aqui do meu diário.





Só uma notinha para dizer que encontrei no YouTube algumas versões belíssimas deste tema de Milhaud para dois pianos, mas nenhuma me pareceu tão alegre e tão 'brasileira', e tão no ponto, como esta do Burmester e do Laginha.
rosas

são josé a caminhar

Gosto de fazer, aqui no innersmile, inventários anuais dos livros que li, dos filmes que vi, dos espectáculos e concertos a que assisti e da música que ouvi. Sobretudo porque esses inventários me ajudam a relembrar todas essas coisas que fiz e a racionalizar sobre aquelas que ficaram comigo e aquelas que foram absorvidas pela poeira da erosão dos dias. E já estou a preprarar esses inventários para os pôr aqui, nos próximos dias.

Mas não costumo, acho eu, se bem me lembro, fazer balanços pessoais. Mas este ano que está prestes a terminar foi um ano diferente, e merece que eu faça aqui uma referência a três acontecimentos que marcaram a minha vida. Os três aconteceram num período de tempo relativamente curto, mas tiveram um impacto muito grande, e que perdura e perdurará.

O primeiro desses acontecimentos foi a entrada na minha vida de uma senhora que contratei para tomar conta dos meus pais. Nos últimos anos, desde 2009 até este ano, a degradação deles, por causa da doença e da velhice, foi muito grande, e a minha vida foi muito desgastante: os sobressaltos, as preocupações, os sustos, foram quase constantes. Além disso sentia, aliás tinha a certeza, de que a situação deles se estava a degradar por eu não poder cuidar deles com a atenção necessária, mas também sentia sobre mim um peso muito opressor por sentir que a minha tranquilidade tinha desaparecido e a minha vida era uma aflição permanente. A alternativa mais plausivel era pô-los num lar, mas além de isso me provocar uma sensação de abandono (deles e meu), sempre temi que isso significasse o seu fim. Com as economias que o meu pai fez durante a sua vida contratei uma senhora que está com eles 24 horas por dia. Estão bem tratados, passaram um ano relativamente calmo, a saúde mental do meu pai melhorou, a situação cardíaca e respiratória da minha mãe esteve controlada, e tudo isso resultou num imenso alívio para mim: por saber que estão bem tratados, e também por poder respirar um pouco, ter mais tempo disponível para mim (mesmo que seja só para estar a aboborar no sofá a ler), não andar o tempo todo roído pelos remorsos e consumido pela preocupação.

Mas como a vida dá com uma mão e tira com a outra, no princípio de maio (no dia primeiro de maio, à noite, para ser mais preciso), comecei a urinar sangue, sintoma, confirmado poucos dias depois, de que tinha um carcinoma na bexiga. Caraças, quase trinta anos depois de ter tido um teratoma que quase me tirou a vida e que demorou dois anos a ser debelado, o cancro voltava a espalhar a sua baba malévola na minha vida. Senti um profundo desânimo, descobri que ainda não estava emocionalmente curado de todo o sofrimento que os tratamentos de cobalto-terapia e de quimioterapia me provocaram quando tinha pouco mais de vinte anos. Mas se em poucos dias tinha um diagnóstico, ainda em menos a situação resolveu-se com uma intervenção cirúrgica que foi, bem vistas as coisas e apesar dos incómodos, uma brincadeira de crianças comparado com o que eu tinha passado da outra vez. E tive um bambúrrio de sorte: como o carcinoma foi diagnosticado num período muito precoce nem precisei de fazer mais tratamentos. Apenas tenho de fazer controlo durante uma série de tempos: já fiz o primeiro em setembro, vou fazer outro em abril e depois por aí fora durante já não sei quantos anos, 5 ou 10, não me lembro. Mas se é verdade que tudo se resolveu bem depressa, há uma certa gravitas que permaneceu: o cancro afinal pode voltar, e volta, e o mesmíssimo azar pode nos bater à porta duas vezes; e de alguma maneira fiquei com o pressentimento (e confesso que com o medo-pânico) de que vai voltar um dia - afinal, não há duas sem três.

Mas se a vida tira, a vida dá! E nesse mesmo mês de maio nasceu a minha sobrinha-neta, no Algarve, e que eu apenas conheci em julho, quando levei os meus pais lá abaixo para conhecerem a bisneta. Há momentos fulgurantes, em que os astros parecem conjugar-se para um festival imenso, e eu vivi um desses, quando, pouco tempo depois de chegar a casa do meu sobrinho, a mulher dele trouxe a bébe e pô-la ao colo da minha mãe, que estava sentada ao meu lado. A minha mãe segurou a bébe de bruços, voltada para mim, e eu inclinei-me para a frente, a falar com ela e a fazer-lhe aquelas fosquinhas que a gente faz aos bébes. Foi aí, nesse preciso momento, que aconteceu: a bébe riu-se para mim e eu fiquei de imediato profundamente apaixonado por ela, completamente rendido à bébe e a todo o amor que ela conseguiu fazer derramar a um velho empedernido como eu. E o melhor é que acho que o amor é correspondido, e a bébe dá-se muito bem comigo e está muito à vontade. Sim, porque entretanto não perco uma oportunidade de a ir visitar e já fui mais vezes ao Algarve nestes últimos meses do que tinha ido durante muitos anos. Este amor que eu sinto pela minha bébe é a melhor coisa que me aconteceu, enche-me de felicidade e alimenta-me os dias. Foi, definitivamente, a melhor coisa que me aconteceu este ano. E está seguramente no top dos tops das coisas boas que a minha vida me deu, e que, já agora, este ano completou as cinco décadas.




Escrevi este texto a ouvir uma coisa maravilhosa que descobri há poucos dias,e que tenho ouvido apenas on-line. Chama-se O Experimentar 2: O Sagrado e o Profano, e é um projecto magnífico, que parte da música tradicional dos Açores para construir uma música profunda, intensa e, ao mesmo tempo, muito íntima e universal. No momento em que acabei de escrever começou a tocar o tema São José a Caminhar, que, além do mais, tem tudo a ver com a noite de hoje. Um arrepio.