December 23rd, 2012

rosas

on the road

Ok, chegou a hora de confessar uma daquelas coisas que um tipo até tem vergonha de admitir, mas lá vai: eu nunca li o On The Road, do Jack Kerouak! E nem adiante elaborar os porquês da coisa, pronto, ficamos assim. Não sei como é que esta falha influenciou o meu olhar para o filme que o brasileiro Walter Salles fez a partir do livro; de qualquer das maneiras, gostei de ver o filme, apesar de achar que de algum modo ele ficou fora das personagens, da pulsão que as animava. Também não sei se contar hoje aquela história consegue entregar de forma intacta a pureza da sua chama.

Mas o filme, na minha opinião, vale por si, pela história que nos quer contar e pelos impossíveis fascínios que a compõem. Além disso tem um inegável peso cultural, é um filme a não perder por quem gosta de livros e dos seus escritores. E tem actores belíssimos, daqueles que nos levariam para casa no fim do filme, e sobretudo três vozes, mais do que os rostos os corpos que lhe dão matéria, que são irresistíveis, as de Sal, Dean e Bull, que acreditamos serem como que ressonâncias das vozes das pessoas que inspiraram essas personagens.
rosas

anna karenina

Isto de fazerem filmes adaptados dos grandes clássicos da literatura tem este efeito de pôr a descoberto as minhas lacunas: ontem foi o On The Road, hoje o Anna Karenina. Pois, outro que também nunca li, apesar de já o ter descarregado para o meu kindle ao módico preço de 99 cêntimos de dolar.

O filme contém propostas interessantes: a adaptação do clássico de Tolstoi é do dramaturgo Tom Stoppard, o realizador é o Joe Wright, de Atonement e de Orgulho e Preconceito, e, sobretudo, a de tratar o filme como uma representação teatral, utilizando uma sala de teatro como o dispositivo cénico onde decorre toda a acção e todas as cenas se sucedem.

Este truque narrativo é o mais interessante do filme, mas, na minha opinião, não é totalmente conseguido, porque nunca consegue criar a suspensão de incredulidade necessária para conseguir a adesão do espectador. De alguma maneira, a sempre bela Keira Knightley e o Aaron Taylor-Johnson são também um pouco responsáveis por esta falha: um filme que assume o seu artifício, e faz dele o seu motor narrativo, precisava de interpretações mais fortes e arrebatadoras, para, pelas personagens, ganhar aquilo que perde em termos narrativos.