December 22nd, 2012

rosas

distopia

No suplemento Ipsilón do passado dia 14 de Dezembro, o jornal Público trazia um artigo do Anthony Burgess a propósito do seu livro The Clockwork Orange e do filme que o Stanley Kubrick fez a partir dele. Esse artigo foi escrito em 1973, na altura em que o sucesso do filme transformou o livro, que tinha sido publicado em 1962, num sucesso de vendas, e permaneceu inédito até este ano, quando a revista The New Yorker o publicou num número especial dedicado à ficção científica. Infelizmente tanto a tradução do Público como a edição original da New Yorker apenas estão disponíveis na net para os assinantes das publicações, e eu não consegui nenhuma versão do texto que seja de livre acesso (e bem gostaria de ficar com ele, para referência futura).

Trata-se de um texto muito bom, que explica ou revela muitas das soluções do romance, e também do filme. Mas mais do que isso, é um exercício excelente sobre o papel da violência nas sociedades contemporâneas, que servia nos anos setenta do século passado, mas continua a fazer sentido na segunda década deste século. Sobre a violência, ou as várias formas de violência, e sobre as maneiras de os estados tentarem domar as formas de violência mais libertárias, chamemos-lhe assim, ou seja, aquelas que não são os próprios estados a praticar.

Mas a principal razão porque trago aqui o texto de Burguess é porque ele refere, a certo ponto, que as principais fantasias do terror que a literatura sua contemporânea ofereceu eram distopias, sendo uma delas a que George Orwell construiu na obra 1984. E resume nos seguintes pontos o essencial do estado totalitário de pesadelo que Orwell antecipou: ”(...) exerce controlo sobre a população, através da falsificação do passado, para que ninguém possa fazer apelo a uma tradição defunta de liberdade; através da delimitação da linguagem, para que ninguém consiga formular pensamentos de traição; através de uma epistemologia do ‘duplopensar’ que faz com que o mundo exterior ofereça aos olhos das pessoas a imagem que os governantes desejam; e através da simples tortura e lavagem ao cérebro.”

O que me chamou a atenção foi o facto de há pouco tempo eu ter referido aqui que a leitura do livro de José Luís Peixoto sobre a sua viagem à Coreia do Norte me ter trazido à ideia precisamente o livro de Orwell, e de como essas caracteristicas essenciais da sociedade futura orwelliana se aplicam de modo quase perfeito ao retrato que JL Peixoto tão acutilantemente nos deu daquele país.