December 18th, 2012

rosas

acta est fabula

Acta Est Fabula

Terminei há poucos dias a leitura de Acta Est Fabula, o primeiro volume das memórias de Eugénio Lisboa, que cobre o período que vai do seu nascimento, em 1930, até à sua ida para Lisboa, para cursar engenharia, em 1947. Conheço o autor desde sempre, acho eu, pelas suas ligações a Moçambique e através de sua presença nos jornais. li-lhe creio que dois livros de poemas, e os dois volumes da sua Crónica dos Anos da Peste, quando, aqui há uns anos, andei a pensar a sério em estudar literatura moçambicana.

Adorei este livro, é claro. Pela evocação de uma Lourenço Marques que associo muito à infância dos meus pais (sobretudo da minha mãe), cujo tempo e geografia é praticamente coincidente com a de Lisboa. Mas gostei muito ainda por outra razão: estas são também as memórias de uma ligação à literatura e aos livros. Muito marcado pela sua vivência de aluno liceal (o capítulo relativo ao Liceu ocupa sensivelmente metade do livro), Eugénio Lisboa dá-nos conta das suas leituras, das descobertas literárias, dos livros que marcaram a sua aprendizagem e daqueles que conheceu enquanto adolescente e que nunca mais abandonou ao longo da vida. Através destas memórias ficamos a conhecer e a perceber melhor um percurso de vida profissional, nomeadamente a inevitabilidade da sua troca da engenharia pelos estudos literários.

Mas o livro ainda vale por outra razão. Sendo certo que tinha Eugénio Lisboa na conta de um excelente ensaista (claro e entusiasmante mesmo para os não entendidos, como eu), surpreendeu-me a vivacidade da sua escrita, o sentido apurado do coloquialismo (uma coisa é só sermos capazes de escrever como falamos, outra, como é o caso do autor, é escrever como se falássemos), a riqueza do vocabulário, o humor, a franqueza do discurso.

Não sei se haverá mais volumes destas memórias, como o título promete, mas estou desde já ansioso para continuar a lê-las.