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a filha
rosas
innersmile
Acho que precisava de rever Amour, o filme de Michael Haneke, entre outras razões porque não prestei atenção suficiente à personagem de Eva, a filha de Anne e Georges, desempenhada pela sempre impressionante Isabelle Huppert, que já tinha feito a protagonista de La Pianiste, o filme de Haneke que mais me marcou até hoje, de tal modo o achei perturbador.

A personagem de Eva, apesar de aparecer de forma escassa, é decisiva, para o filme, para a história e para a nossa recepção de um e de outra. De certo modo ela representa a perplexidade de quem está demasiado próximo do problema (da degenerescência provocada pelo envelhecimento e pela doença) para lhe poder ser alheio ou indiferente, mas tão radicalmente fora dele para o conseguir compreender.

E essa perplexidade é dolorosa, porque achamos que devemos fazer alguma coisa por aqueles que amamos, e não fazemos a mínima ideia do que possa ser, e essa sensação de impotência é insuportável; mas é ela própria causadora de sofrimento, porque, ainda que mais ou menos involuntariamente, põe mais pressão naqueles que o estão verdadeiramente a viver. Por isso, acho eu, há um certo ponto em que Georges como que excluí a filha da doença da mãe e do processo que a está a levar à morte.

É um bocado imperdoável (mas possivelmente compreensivel) que eu não tenha dado a devida atenção a Eva. De alguma maneira, é a personagem que eu melhor conheço, aquela que tem a perspectiva da qual eu próprio vi o filme.