December 11th, 2012

rosas

cartas vermelhas

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A história do nosso país está cheio de histórias magníficas, à espera de serem contadas. Por sorte, de vez em quando alguém decide contar uma delas, ainda que matizada pela ficção própria do romance.

Ao longo da primeira metade do século XX, uma jovem cabo-verdeana, de seu nome Carolina Loff da Fonseca, veio estudar para Lisboa. Logo à chegada teve ligações ao partido comunista, que a levaram à militância, à clandestinidade, e às altas esferas do poder soviético. Um dia, já de regresso a Portugal depois de uma passagem pela guerra civil de Espanha no momento do triunfo fascista, é presa pela PVDE, como se chamava a PIDE na altura, e o impossível acontece: apaixona-se por um dos agentes da polícia política que a interroga. Consumada essa paixão, é expulsa do PC por traição. Com um pormenor: quando viajou de Portugal para Moscovo, Carolina levou consigo uma filha muito pequena, que deixa internada num colégio oficial do Comintern quando parte para Espanha e para Portugal, e que esteve 20 anos sem ver.

Com base nesta história extraordinária, Ana Cristina Silva escreveu Cartas Vermelhas, um romance que segue no essencial a vida de Carolina Loff, mas ao qual interessa sobretudo aprofundar, com as armas e as artes do romance, o conflito interior que teria necessariamente de ser vivido por quem levou uma vida tão aventurosa. A obra está muito bem estruturada: começa com o estranho reencontro entre mãe e filha que não se conhecem, e desenvolve-se alternando capítulos que constituem como que uma longa carta que Carol (assim se chama a personagem) escreve à filha durante a viagem de comboio de regresso a Lisboa, e capítulos de um romance que Carol vai escrevendo para dar à filha testemunho da sua própria vida. A escrita é competente, sem chegar a ser compulsiva.