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amour
rosas
innersmile
O que primeiro impressiona em Amour é o rigor e a inteligência com que o filme está construído (dígamos que apenas uma questão de grau em relação ao que é habitual no cinema do realizador). Os planos iniciais são decisivos: os bombeiros a arrombarem a porta de um apartamento e a descobrirem no quarto o cadáver de uma mulher idosa, cuidadosamente vestida e rodeada de flores. Seguidamente o plano fixo do auditório de um teatro a partir do palco, onde nos esforçamos por descobrir (as) personagens. Depois voltamos ao interior do apartamento no momento em que um casal de idosos abre a porta, que apresenta sinais de tentativa de arrombamento, e de onde não mais saímos, a não ser em breve sequências oníricas.

Esse rigor e essa inteligência são, como sempre, postos ao ao serviço do trabalho de dissecação implacável que Michael Haneke faz da alma, e daquilo que são as suas chagas e os seus abismos. Mais do que o lento e como que encenado processo de degenerescência, provocada pelo envelhecimento e pela doença (duas estações onde todos nós, se as coisas correrem bem, vamos parar), o que o realizador “mostra” (atenção às aspas) é o lado de dentro do sofrimento que lhe está associado, da dor e da humilhação, e de como, de algum modo, resistir é sempre um processo de auto-alimentação desse sofrimento. Como um labirinto que lentamente se simplifica à medida que se aproxima do seu fim.

O cinema de Haneke é duro e pede o confronto do espectador com os seus mais insidiosos e inquietantes demónios. Neste aspecto, Amour não é melhor ou pior do que os outros filmes do realizador que conheço. Mas se este é um cinema com bola vermelha para os espíritos mais sensíveis, este filme é particularmente doloroso para quem tem ou teve de lidar com a degradação física e intelectual associadas à velhice e à doença, nomeadamente de parentes próximos. No entanto sai-se desse confronto com uma espécie de apaziguamento porque, afinal, parece haver um fio de dignidade que podemos sempre salvar.

É impossível falar no filme sem mencionar os seus dois actores, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Todo o filme, ou seja o filme como um todo e tudo o que faz o filme, assenta no seu jogo e nos seus corpos. Trintignant, então, é de uma beleza ‘bouleversante’, porque a sua força e a sua fragilidade, a coragem e o medo, presentes em cada gesto, em cada fotograma, são da ordem do sublime.
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