?

Log in

No account? Create an account

cloud atlas
rosas
innersmile
Cloud Atlas é um filme realizado a três mãos, as dos irmãos Wachowski, da série The Matrix, e do alemão Tom Tykwer, de quem eu vi dois filmes de que gostei bastante, Run Lola Run e Drei, e resulta da adaptação de um livro do escritor inglês David Mitchell, que eu só conhecia de nome, porque o meu amigo Zé leu e gostou.

Tratando-se de um daqueles casos em que a pergunta ‘é sobre o quê’ não faz grande sentido, sempre adiantarei que o filme narra seis histórias diferentes, passadas em tempos e localizações distintas, que todavia partilham alguns elementos de ligação, o primeiro dos quais o facto de cada uma das histórias ser referida no história que cronológicamente se lhe segue. Além disso, há ligações entre elas, mais ou menos subtis, padrões que se repetem, e o facto de o núcleo principal de actores desempenhar personagens em todas ou em várias histórias, o que cria entre elas (histórias e personagens) ressonâncias interessantes.

O que mais me impressionou e agradou no filme é ser assim uma espécie de emersão numa piscina narrativa, em que há sempre histórias a correr, ao mesmo tempo, e que nos arrastam ao longo de quase três horas, se aceitarmos a premissa de nos deixarmos conduzir por quem no-las conta. Também gostei do facto de o filme sugerir, de forma bastante subtil, o tema da reencarnação. Não porque eu acredite nela, mas porque acho que é um tema que tem muitas potencialidades narrativas e é raro vê-lo explorado por esse prisma.

Gostei muito da banda sonora, de que o Tom Tykwer é um dos co-autores, e que estou a ouvir no momento em que escrevo.
Tags:

dentro do segredo
rosas
innersmile
images

É irresistível a proposta que José Luís Peixoto nos faz no seu mais recente livro, Dentro do Segredo: acompanhá-lo numa viagem de duas semanas à Coreia do Norte, que decorreu em Abril passado, por ocasião do centésimo aniversário do nascimento de Kim Il-Sung. Eu diria que o grande mérito do livro, para além da escrita segura do autor, é dar-nos, na mesma medida, o relato da viagem, e a impressão de estranheza com que Peixoto a viveu.

Não vale a pena estar aqui com grande considerandos acerca da Coreia do Norte e do seu regime totalitário. Mas o livro é impressionantemente eficaz a transmitir a sensação de extremo absurdo de um país que mantém os seus habitantes no isolamento completo acerca do seu exterior, substituindo-o por uma ficção que serve o único objectivo de manter um povo no máximo nível que se possa imaginar de submissão. Neste aspecto, ao ler Dentro do Segredo nunca consegui afastar a impressão de estar a assistir à mais perfeita concretização do pesadelo futurista criado por George Orwell em 1984.

Não sei não estarei a ser injusto, mas o único quase imperceptível defeito que encontrei no relato de José Luís Peixoto, é que o achei ligeiramente self-conscious (não consigo encontrar tradução para esta expressão), como se nota quando descai um pouco para um certo humor paternalista, por exemplo em relação aos dois guias Kim que o acompanharam na viagem, e isto não obstante o esforço visível que o autor faz para não cair em paternalismos moralistas simplificadores.

E digo que estou a ser injusto porque isto não é nada comparado com o enorme esforço que o autor faz ao longo de todo o livro para que o seu olhar consiga atravessar a barreira invisível que é erguida aos visitantes para que não vejam mais do que aquilo que se lhes quer mostrar. E que esse olhar, muito perplexo e mesmo um pouco desamparado, é sempre dirigido ao que mais interessa nesta história, que são as pessoas, os homens e as mulheres, os velhos e as crianças, que estão sempre presentes ao longo do relato, e que o José Luís Peixoto não pára de puxar para o primeiro plano, não tanto para lhes dar visibilidade, mas para tentar perceber onde é que, numa sociedade assim, reside o essencial do que é ser humano.