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(antigamente aqui havia um cinema) (http://umbloguesemnome.blogspot.pt/)
rosas
innersmile
ANTIGAMENTE AQUI HAVIA UM CINEMA

Passava fitas de cobóis e de kung fu, e, aos sábados à meia-noite, filmes pornográficos. Hardcore primeiro escalão, como aparecia escrito nos cartazes. Nós vivíamos ao cimo da rua, junto à Sé. Eu em frente, por cima do café que ainda lá está. O JH mais acima, por trás da igreja, quando se sobe para a universidade. O cinema já estava decrépito nessa altura, mas ainda funcionava.

Estávamos juntos todo o dia. Íamos de manhã para o liceu, na baixa, ao pé da polícia, e passávamos a tarde por aí, em brincadeiras de rua, ou metidos em casa a ler. Um dia, devíamos ter catorze ou quinze anos, o JH chegou a minha casa animado: o irmão mais velho, num raro assomo de amor fraternal, tinha-lhe ensinado uma maneira de entrar no cinema por uma janela que dava para uma sala abandonada de onde se conseguia ver o ecrã todo.

A manobra era arriscada, implicava atravessar uns telhados, mas numa noite de sábado, eu e o JH, o coração a bater-nos nos ouvidos e o suor a escorrer copioso pela testa, entrámos no cinema para ver ‘Põe-me de Gatas’, com a grande Bambi Barbour. Tinha o filme mal começado e o JH já estava excitadíssimo. Eu ainda tremia de medo e o suor frio que me ensopava as costas da camisa não me deixava sequer concentrar nas fogosidades da Bambi. Foi então que o JH encostou o seu rosto ao meu e beijou-me na boca.




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A Margarida lançou o desafio de lhe sugerirmos títulos de contos que ela escreveria em 250 palavras (está neste link). Pus-me a pensar depressa, à procura de frases de cinco palavras, e, sem reflectir ou racionalizar muito, o primeiro que me apareceu foi este: antigamente aqui havia um cinema.

Claro que logo a seguir a lhe ter sugerido este título, comecei a compor mentalmente e a escrever o meu próprio conto com o mesmo título e o mesmo número de palavras, que é este que aqui ponho.

Como combinei com a Margarida pormos on-line cada uma das nossas histórias no mesmo momento, nesta altura em que escrevo ainda não li o conto dela. De qualquer forma, acho que só faz sentido ler esta minha história se se ler também a dela. Como ainda não tenho link para a página com o conto, aqui fica o link para o blog da Margarida, mas tu és tudo e tivesse eu casa tu passarias à minha porta.
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prático e funcional
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innersmile
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"Está tudo bem por aí?
Considero-me prático e funcional. Respondi sempre pelo lado do senso comum. Dizer que estava tudo bem era a minha maneira de dizer que não estava doente, que não tinha sido preso e que contava regressar a casa como combinado. Mas, claro, essa não era a resposta completa a uma pergunta tão vasta."

- José Luís Peixoto, DENTRO DO SEGREDO (Quetzal)