November 30th, 2012

rosas

josé

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José, de Rubem Fonseca, apresenta-se como um romance, mas é de facto uma memória, em que o uso da terceira pessoa do singular permite ao autor ganhar alguma distância narrativa em relação ao relato das suas próprias infância e adolescência. Livro brevíssimo, lê-se em três ou quatro horas, que eu consegui dividir por três serões.

Não é, no que diz respeito ao seu conteúdo, um livro inteiramente feliz, sobretudo porque se perde um pouco em relação ao seu objecto: uma memória pessoal, onde é sempre melhor, uma crónica do tempo, que tem os seus momentos mas também tem alguma palha, e uma incipiente análise social. Digamos que sofre de alguma auto-complacência, mas creio ser esse um pecado absolutamente perdoável.

Mas mesmo nos seus momentos mais débeis, o livro oferece-nos sempre uma escrita fulgurante, e é por aí que nos ganha. Rubem Fonseca é um génio a escrever, ou não fosse um dos grandes nomes da literatura brasileira, que criou, por assim dizer, um determinado tipo de romance policial negro. Não chegam os adjectivos, mas sumptuosidade é capaz de chegar perto do modo como RdF usa a língua portuguesa.

Fiquei por isso com muita vontade de ler mais livros dele. Se isto é assim numa obra com um escopo relativamente modesto, imagino como será no seu prime. Curiosamente lembro-me de ter lido um único livro de RdF, O Caso Morell, mas foi há tantos anos que de facto foi mesmo noutra vida, noutra reencarnação minha, e não me recordo de absolutamente nada.