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Eu sei que quando uma pessoa se está a afundar adianta pouco ir lá gritar-lhe: vês? eu não te disse para aprenderes a nadar? Mas também é verdade que se não tomarmos consciência dos nossos erros dificilmente os poderemos ultrapassar, e estaremos condenados a repeti-los para sempre.

Confesso que não tomei grande atenção às declarações de Isabel Jonet, a presidente ou diretora ou seja o que for do Banco Alimentar Contra a Fome. Mas captei o essencial e devo dizer que, descontando o tom vagamente afectado e até um uso porventura mais desastrado do discurso, no essencial acho que ela tem razão.

Este processo de empobrecimento a que estamos a ser forçados por um ocupante estrangeiro em forma de triunvirato e por um governo fantoche, só faz sentido se reflectirmos a sério sobre o que tem sido o nosso padrão de vida nas últimas décadas, desde que Cavaco foi primeiro-ministro, e provavelmente o mais nocivo de todos, e, por oposição, a nossa incapacidade de gerar riqueza pela força do trabalho, do empreendimento, e do sentido do colectivo.

Será que alguém tem dúvidas de que passámos as últimas três décadas a viver acima dos nossos meios? A endividarmo-nos, como país, como famílias, como consumistas desregrados, para comprar casas, carros de alta cilindrada, telemóveis de última geração, ou férias nas Caraíbas, que pagávamos a prestações, através de ALDs, de empréstimos a bancos ou a quaisquer outras entidades financiadoras, sem olhar a meios e a limites. É que no essencial foi isto que Isabel Jonet disse ou quis dizer: que temos de reaprender a ser responsáveis nos nossos consumos, a ser pessoas crescidas e sérias, como eram os nossos pais, que trabalhavam duro e gastavam na proporção do que tinham, e não da sua capacidade de contrair empréstimos.

Eu sei que, em rigor, a “culpa” não é nossa (atenção às aspas). Sei que durante anos recebemos subsídios da Europa para desmantelar o sector produtivo, para acabar com a agricultura e com as pescas, para fechar fábricas. Venderam-nos a ideia de que se fossemos apenas terciários nos safávamos: campos de golfe, hipermercados e auto-estradas era tudo o que precisávamos e em troca mantinham-nos alimentados e entretidos com o sonho de consumo do dia. A mesma Europa que agora acha que somos calaceiros e que queremos viver à custa dos outros.

Sei que os bancos, esses que nunca ficam a perder, e para quem encaminham o dinheiro que nos tiram, os bancos e essas entidades financiadoras nos emprestavam dinheiro a troco de nada, prometiam-nos mundos e fundos, concediam-nos créditos por telefone, sem garantias, para comprar tudo e mais alguma coisa.

Durante anos recebemos subsídios para qualificar os nossos recursos humanos e os milhões e milhões que chegaram até cá através dos quadros comunitários de apoio não serviram rigorosamente para nada, a não ser para enriquecer aqueles que tiveram olho e conseguiram enriquecer à custa das acções de formação em que toda a gente, mas toda a gente, participou ou frequentou com financiamentos europeus.

Muitas vezes, desde o tempo do Cavaco, usei a metáfora de que o nosso enriquecimento era como a caixa de cartão onde o barbeiro me sentava para me cortar o cabelo quando eu era criança: fazia-me chegar ao espelho, sentir-me alto, um homem, mas, claro, ao fim de vinte minutos saltava da cadeira e voltava à insignificância da minha pequenez. Pois bem, chegou a hora em que tiraram a caixa de cartão que nos fazia parecer que éramos um país rico. Juro, palavra de honra, que nunca me passou pela cabeça que fosse tão doloroso como está a ser, mas tenho a certeza de que toda a gente com dois dedos de testa e um módico de bom senso, sabia que este dia ia chegar.

Temos todos, todos e cada um de nós, responsabilidades sérias por termos continuado a dançar no salão enquanto o navio inexoravelmente deslizava em direcção ao anunciado iceberg. Por isso, agora que ele afunda a pique, atirar pedras a quem diz que o rei vai nú, parece-me mais um sinal da nossa mediocridade, da nossa pequenez, e sobretudo da nossa incapacidade. E nem sequer me refiro ao tom canalha dos insultos, das insolências e das baixezas com que agora todos os cachorros se acham no direito de lhe ir morder as canelas.

Não tenho procuração de Isabel Jonet, nunca colaborei com o Banco Alimentar mais do aceitar um saco plástico à entrada do supermercado e meter lá dentro um pacote de arroz ou de esparguete. Mas mais até do que acudir a quem precisa, o que me lembro das campanhas do Banco Alimentar Contra a Fome é dos rapazes e das raparigas, alegres e bem dispostos, descontraídos e descomplexados, que colaborando voluntariamente nessas campanhas aprendiam o mais importante: que tudo só faz sentido se for para os outros, qualquer que seja o seu rosto. Tenho muita pena se esta polémica infeliz e completamente tonta e maldosa, contribuir para desfazer o sonho desses miúdos e miúdas que, ele sim, me convencia a aceitar o saco plástico à entrada do supermercado.
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Às oito horas e nove minutos do dia dez do onze de (dois mil e) doze.
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