November 3rd, 2012

rosas

cesare deve morire

Cesare Deve Morire parte do conhecimento que os irmãos Paolo e Vittorio Taviani, veteranos cineastas do neo-realismo italiano, tiveram de uma experiência teatral em Rebibbia, uma prisão de alta segurança nos arredores de Roma. Com a colaboração do encenador Fabio Cavalli, os irmãos Taviani filmam a produção, no interior da prisão, de Julio Cesar, a tragédia de Shakespeare. O nome dos Taviani, a originalidade do projecto e o facto de JC ser a minha peça preferida de Shakespeare (muito por causa do discurso de António, na versão Marlon Brando do filme de Joseph L. Mankiewicz), eram razões mais do que suficientes para ir ao cinema.

O filme tem uma relação complexa com a realidade, não sendo nem um documentário, nem uma ficção, nem uma sessão de teatro filmado, mas sendo igualmente tudo isso e ainda mais. Os prisioneiros-actores são eles próprios, apresentam-se com os seus nomes verdadeiros, e é-nos dada a razão, importante para a lógica do filme, e a medida das suas penas: crime comum, tráfico de droga, ligações ao crime organizado, tudo penas de prisão maior, algumas de encarceramento para toda a vida. O filme começa admiravelmente com as audições para escolha da distribuição das personagens.

Há depois o plano da própria tragédia de Shakespeare, o texto, os ensaios, as indicações do encenador (por exemplo, a opção pela utilização dos dialectos e dos sotaques de cada actor), e, a abrir e a fechar (a cores, já que o restante filme é a preto e branco) imagens das representações públicas da peça, do aplauso dos espectadores.

E é entre estes dois planos, o da circunstância extra-filme dos actores-prisioneiros, e o da trama da tragédia shakespeariana, que o filme ganha um fôlego extraordinário, uma energia incontida, que vem inteira dos actores, do seu jogo, onde há filamentos, digamos assim, que são evidentemente ficcionais (o filme recria os dramas da prisão, sem todavia resvalar para o chamado drama de prisão), e outros que nos deixam perplexos sem saber muito bem como lidar com eles (a presença silenciosa de Lucio, os conflitos relacionais de Cesar, para dar dois exemplos). Há actores que nunca deixam de ser os prisioneiros, mas também há prisioneiros que, sentimos, se ultrapassam a si próprios para a condição de actores (Bruto e Cássio são os mais evidentes, talvez por serem os protagonistas da traição e do crime).

Entre essa enorme energia que se desprende do ecrã, e a subtileza das imensas leituras que o filme nos oferece (ou disponibiliza, talvez um termo mais adequado), o resultado é um filme estimulante, rico, que nos trata como adultos e nos convoca para o seu interior, enfim tudo aquilo que o cinema deve ser, e tão raramente é hoje em dia. Para mim, é um dos filmes do ano, sem dúvida, e constitui um regresso em grande dos Taviani e um momento alto do cinema italiano, uma das minhas cinematografias preferidas.