November 1st, 2012

rosas

diários

K_Al Berto_Diarios

Pegar no volume dos Diários (1982-1997) de Al Berto, começar a folheá-los, e sentir a exaltação como um regresso a casa. O aconchego de saber que há um nome para o inominável, que outros olhos viram, e sentiram, e choraram, o invisível. Que tocaram por dentro o que não se pode tocar, o fogo a lavrar por dentro das pálpebras. Ler como voltar.

O livro devolve-nos a quase integralidade de agendas e cadernos, a febril produção literária, textos e ensaios de textos, mas também notas e apontamentos, recados, papeis avulsos colados às folhas dos cadernos. Se aceitarmos o jogo, e é tão pouco o esforço necessário para o fazer, dado o cuidado que Golgona Anghel pôs na edição, podemos sentir que temos nas mãos a mão do poeta, a mão que segura a caneta e alisa o papel, a suada humidade do seu transtorno.

Corri as folhas, à procura do que estivesse à espera de ser encontrado. Li capítulos (chamemos-lhes assim) inteiros, senti-me quase virginal a ler as primeiras páginas, quase obsceno nas páginas finais.

"O Nilo corre perto da cabeça de António. A mão abriu-se sobre a margem. Pousa na mancha de sangue onde ergui o desejo. E o sangue alastra pelo quarto de quem morre no poema."