October 19th, 2012

rosas

boletim clínico

Finalmente, à terceira tentativa, lá fizeram o tratamento à minha mãe de radio-frequência, para tentar suster a evolução do hepato-carcinoma. Foram praticamente dois dias que eu passei no hospital, para lhe fazer companhia e para a tentar manter tranquila em relação à perspectiva do tratamento, de que estava cheia de medo.

Quanto a resultados, só daqui por um mês, mais ou menos, quando fizer o controlo imagiológico, é que se saberá se o tratamento foi eficaz. Mas foi uma etapa ultrapassada, com sucesso, e isso por enquanto é que é importante. Se tudo correr bem, isto é, se a tensão arterial baixar e se o princípio de gripe não evoluir, talvez ainda tenha alta hoje.

Estas situações são sempre muito complicadas, e os equilíbrios familiares sempre muito frágeis. Para além da minha mãe no hospital, é o meu pai em casa completamente desatinado e em estado de grande carência e desorientação, porque lhe falta a minha mãe.

Eu tento manter-me à tona, mas fiquei um bocado preocupado porque nestes dois últimos dias medi a tensão de manhã e estava altíssima. Acho que depois disto acalmar não me safo de ir a um cardiologista, o medicamento que tomo todos os dias já não deve estar a fazer efeito nenhum. Este ano tem sido bera em termos de saúde, e o drama é pensar que daqui para a frente não será melhor.

E pronto, foi o boletim clínico da semana. Retomaremos em breve as nossas emissões regulares.
rosas

confusos sentidos

ATROPELAMENTO E FUGA

Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!


- Manuel António Pina


A notícia da morte de Manuel António Pina cai tristemente no fim da tarde já triste. Acho que não merecíamos perdê-lo. Tão cedo. Tão tarde.