October 16th, 2012

rosas

retrosaria

Estou a ler o livro Jack Holmes and His Friend, do Edmund White, e ontem à noite apareceu-me a palavra 'haberdasher'. Estava a pensar qual seria a possível tradução para este tipo de loja e não me conseguia lembrar do nome de um género de lojas que havia dantes e agora quase desapareceram, pequenas lojas de bairro que vendiam de tudo um pouco, mas sobretudo coisas para o lar, linhas, lãs, fitas de nastro, botões. Aqueles materiais que serviam para fazer determinadas coisas que eram precisas em casa e que hoje se compram nos hipermercados e nas lojas dos chineses. De repente lá me veio à memória a palavra: retrosaria. Não será bem a mesma coisa, mas pronto.

Quando vim viver para o bairro, havia muito perto do nosso prédio uma loja destas, uma retrosaria. Era dos pais do JH, um colega meu de liceu que foi das primeiras pessoas que conheci quando mudei de terra, por essa dupla circunstância de sermos colegas de turma, creio que com números de alunos seguidos por termos nomes próximos, e de sermos praticamente vizinhos. Durante uns anos, o JH foi o meu melhor amigo. Tinha mais quatro ou cinco, mas nesses tempos de final do liceu ele era o mais constante e o mais chegado dos amigos.

Partilhávamos gostos. Foi com ele que me tornei cinéfilo, havia alturas em que íamos dias seguidos às sessões das poucas salas de cinema que havia na altura. Víamos de tudo, ou quase tudo, mas sobretudo comédias, fitas italianas e cinema daquilo a que se chamava arte e ensaio. Foi com ele que aprimorei o meu gosto musical e deixei de ter as referências musicais do meu irmão para ganhar as minhas próprias. Foi com ele que desenvolvi o gosto da leitura, em particular dos policiais, e por arrasto a mania de começar a escrever coisas. A loja dos pais dele vendia também revistas e jornais, e muitas vezes, à noite, no fim dos nossos passeios ou do cinema, fechávamo-nos lá dentro a ler as revistas.

Fomos inseparáveis, ou quase inseparáveis, durante uns três ou quatro anos, entre o sexto ano do liceu e a entrada para a universidade, onde seguimos opções diversas e entrámos para cursos diferentes. Continuámos, pelo menos até à altura em que fiquei doente, muito próximos, mas sempre cada vez mais afastados. Depois eu fiquei doente, e a sensação que tenho é que foi nessa altura que o JH, como tantos outros colegas e amigos, desapareceram da minha vida devagarinho, suavemente, quase como o fade out de um filme. Como se, tendo eu sobrevivido à doença, o preço que paguei foi terem morrido muitas dessas amizades frágeis da juventude.

Vale a pena frisar que o livro do Edmund White é sobre um jovem gay que está apaixonado pelo seu melhor amigo, que é heterossexual?


(Escrevi este texto a ouvir Shenandoah, de Keith Jarrett, do álbum The Melody At Night With You, e espero que ele retenha alguma coisa da melancolia mansa e lírica dessa música)