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os primos da américa
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os primos

Gosto muito de ler as crónicas do jornalista Ferreira Fernandes. Li-as todas quando ele escrevia na Visão, leio com menos regularidade agora que as escreve diariamente no Diário de Notícias. Li também, sem grande entusiasmo devo dizer, e tanto quanto me lembro, um livro de que foi co-autor, e que contava a história de Portugal através de frases famosas.

Li agora de sua autoria Os Primos da América, um volume ali a meio caminho entre a crónica de viagens e a grande reportagem de carácter mais jornalistico, e que reflecte uma viagem que o autor encetou, em 1990, pelos caminhos da emigração portuguesa nos EUA.

Dividido em três partes, correspondentes a três zonas dos Estados Unidos com significativas comunidades luso-americanas, o livro estabelece de forma muito clara as grandes diferenças entre essas comunidades, derivadas sobretudo do tempo da respectiva corrente migratória, nomeadamente em termos do peso e do valor da herança cultural portuguesa que em cada uma delas está presente: muito ténue e quase exclusivamente simbólica, e por isso também apaziguada, no Havai; muito presente em termos históricos, estritamente ligada aos modos de desenvolvimento económico, e relativamente estável, na California; contemporânea e problemática, actual e conflituosa q.b., no que toca às comunidades da costa leste, nomeadamente em Newwark e na Nova Inglaterra.

O livro tem logo á partida um mérito inegável: debruçar-se sobre uma parcela importante da nossa história e da nossa contemporaneidade, ainda para mais agora, que a falta de soluções para os problemas do país passa pela saída de muitos nacionais, absurdamente incentivada pelos próprios governantes. Importância que é muitas vezes esquecida e tantas vezes desprezada, sobretudo quando ligada aos sectores mais pobres da população. Ao contrário, é claro, do que está a acontecer agora, em que os novos emigrantes, sobretudo jovens, pertencem sobretudo à classe média, e o problema se está a tornar transversal em relação a toda a população nacional: suponho que neste momento já deva haver muito poucas famílias portuguesas que não têm filhos seus emigrados, principalmente na Europa, no Brasil ou em África.

Mas em 90, quando efectuou a sua viagem, Ferreira Fernandes encontrou essencialmente três tipos de luso-descendentes: os pobres que saíram, sobretudo das ilhas, ao longo do século XIX, os pobres que emigraram para a América no início do século XX, e os pobres que chegaram ao novo mundo nos anos sessenta e setenta do século passado, muitos deles na deriva da descolonização.

O mérito do livro é todavia mais vasto, e resulta muito da sensibilidade de repórter de Ferreira Fernandes, da excelência da sua escrita (mais literária do que jornalística), do seu gosto pelas pequenas histórias e seus protagonistas, e da subtileza elegante e discreta como fala de sentimentos e emoções.