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smilla
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Smilla e Os Mistérios da Neve, da autoria do dinamarquês Peter Hoeg (falta ali um traço diagonal no O, mas não sei como se põe), é um dos livros fundadores do sub-género do policial nórdico, que teve bastante êxito há cerca de vinte anos, e até deu origem a um filme, que nunca vi, realizado pelo Billie August e com a Julia Ormond no papel da protagonista.

Tratando-se de um inequívoco thriller, denso e sombrio, o livro é também de maneira inegável, mais do que isso. É, em primeiro lugar, um estudo sobre uma personagem. Os Mistérios da Neve vivem de Smilla e subsistem quase exclusivamente no plano da existência de uma personagem que é solitária e anti-social qb, muito critica em relação às instituições (familiares, políticas, sociais), orfã de mãe e de terra, mas que enceta uma investigação perigosa apenas porque acha estranha a ‘naturalidade’ de um acidente mortal que sofre uma criança sua vizinha. De resto, o livro é narrado na primeira pessoa do singular, o que acentua este aspecto íntimo da narrativa.

Depois é um romance de género. Cumprindo as regras do policial negro, o livro constrói um universo frio e sombrio, como as longas noites dos invernos gelados nórdicos. A narrativa acompanha a progressão da própria acção e dos seus lugares: sempre mais para norte, mais para o gelo, mais para o isolamento e para uma certa precaridade da existência.

Finalmente é um livro com preocupações sociais e mesmo políticas, trazendo para primeiro plano um assunto raramente discutido: os colonialismos europeus, mais propriamente a colonização da Gronelândia pela Dinamarca. Smilla é uma orfã desta colonização, de uma maneira não muito distante, por exemplo, da orfandade que os retornados sentiram após a descolonização, em particular os brancos que nasceram nos territórios que, para todos os efeitos, acreditaram fazer parte de um Portugal africano e que descobriram que, afinal, eram apenas naturais de um equívoco.

O único senão do livro vai para a tradução portuguesa, que vai piorando sempre ao longo do livro, e que se torna um impedimento à progressão e ao prazer da leitura, com trechos verdadeiramente ilegíveis. É uma pena, um livro tão interessante ser assim prejudicado por uma tradução tão infeliz.