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a memória por castigo
rosas
innersmile
Na revolução que Amália Rodrigues trouxe ao fado ao longo dos anos 60, o luso-francês Alain Oulman teve, como se sabe, um papel decisivo. Enquanto compositor, escrevendo melodias que hoje são clássicos absolutos, e que foram escritos, ou melhor, foram sendo escritos sempre para o canto de Amália, mas mais do que isso, trazendo para essa voz, a voz da poesia portuguesa, dos grandes clássicos aos poetas contemporâneos. A lista, de melodias, de poemas e de poetas, é tão extensa, que dar exemplos é sempre curto e, mais do que injusto, insensato.

Um dos poetas que Amália trouxe para o fado foi Pedro Homem de Mello, a quem Oulman recorreu em inúmeras ocasiões, nomeadamente para aquele que é seguramente um dos meus fados preferidos, Havemos de Ir a Viana.

Esse período áureo da carreira de Amália começou em 62, com o disco Busto, e atingiu o seu ponto maior em 1970, com a edição de Com Que Voz. Mas a colaboração de Amália com Alain continuou pelos anos 70, e a presença dos poemas de Pedro Homem de Mello também. Um dia destes lembrei-me de um fado da Amália, que foi editado no disco Cantigas numa Língua Antiga, já na segunda metade da década de 70, mais propriamente em 1977. E que reúne os três: Amália, Oulman, e Homem de Mello.

Chama-se Gondarém, título roubado à freguesia do mesmo nome, nas margens do rio Minho, e conta uma história de contrabandistas, actividade na qual a terra terá sido naturalmente pródiga. O refrão é poderoso: "Vim morrer a Gondarém / Pátria de contrabandistas / A farda dos bandoleiros / Não consinto que ma vistas". Mas todo o poema é admirável, denso, negro, trágico. E, claro, como sempre acontece com os grandes poemas, ultrapassa a sua própria circunstância. Todo o poema pode ser lido como um comentário tanto à situação política da época em que foi escrito como ao desencantado momento em que vivemos hoje, mas o arranque da primeira estrofe é impressionante: "Numa banda a Espanha morta / Noutra Portugal sombrio".

O poema completo é como se segue. O melhor clip que encontrei na net, gravado numa actuação ao vivo na televisão brasileira, é de 1979, dois anos após a gravação original da canção. Como não permite a incorporação externa, aqui fica o link para o YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=SrBhnQ7SzMY

Vim morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas.
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.

Numa banda a Espanha morta
Noutra Portugal sombrio
Entre ambos galopa um rio
Que não pára à minha porta.
E grito, grito: Acudi-me.
Ganhei dor. Busquei prazer.
E sinto que vou morrer
Na própria pátria do crime.

Vou morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.

Por mor de aprender o vira
Fui traído. Mas por fim,
Sei hoje, que era a mentira
Que então chamava por mim.
Nada haverá que me acoite
Meu amor, meu inimigo,
E aceito das mãos da noite
A memória por castigo.

Vim morrer a Gondarém
Pátria de contrabandistas
A farda dos bandoleiros
Não consinto que ma vistas.