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matteo perdeu o emprego
rosas
innersmile
9768386

Já tinha lido este ano Uma Viagem à Índia, e agora uma referência no blog de Maria do Rosário Pereira, Horas Extraordinárias, levou-me a outro livro de Gonçalo M. Tavares, Matteo Perdeu o Emprego.

A estrutura do livro é muito curiosa: uma série de pequenas narrativas, cada uma com o seu protagonista, organizadas alfabeticamente, que vão introduzindo o protagonista da história seguinte, até chegarmos à história, mais desenvolvida do que as anteriores, de Matteo e do seu emprego. Esta estrutura tem um contraponto gráfico nas fotografias de manequins que representam as várias personagens.

O tom das histórias está ali entre o absurdo e o horror, não tanto pelo conteúdo narrativo, ou seja pelas peripécias que as histórias vão contando, mas sobretudo pelo que representam: comportamentos ou atitudes que estão muito na fronteira entre a civilização e a barbárie, mas por esta ordem. Ou seja, não propriamente num grau de desenvolvimento da história humana que nos trouxe até ao ponto onde estamos, mas antes num certo resvalar do nosso modo civilizado de ser, que levado ao absurdo mostra como estamos muito perto de regressar a uma certa barbárie.

As pequenas histórias do volume são assim divertidas porém levemente perturbadoras, mas sempre muito provocadoras na maneira como nos incitam a revermo-nos, ou a revermos uma parte de nós, numa estranheza que afinal nos é familiar.
O livro conclui-se com um longo posfácio que repensa as histórias, fornecendo-nos pistas para a sua decifração ou, pelo contrário, subvertendo os seus códigos aparentemente mais óbvios. Apesar de ser indispensável e também ele muito provocador, eu achei a maior parte destas notas a Matteo bastante menos entusiasmantes do que as próprias histórias.