?

Log in

No account? Create an account

conundrum
rosas
innersmile
9780571209460

Há uns dois anos atrás li um dos melhores livros de viagens que conheço: Veneza, da autoria de Jan Morris, que é considerada uma das melhores escritoras inglesas da actualidade, com uma obra que privilegia os travelogues, mas que inclui a ficção, a história, as memórias e o ensaio de forma geral.

Veneza é um livro majestoso, o que me fez sentir naturalmente curiosidade pela sua autora. Na altura em que ele foi por cá publicado, um artigo creio que no Ipsilon do Público suscitou ainda mais curiosidade: afinal Morris era um transexual, tendo mudado de sexo em inícios dos anos 70, daí que parte da sua obra, Veneza incluído, tenha sido assinada com o seu prévio nome masculino, James. Foi ainda como James Morris que participou, como correspondente do The Times, na expedição britânica que pela primeira vez subiu o Everest.

O interesse em conhecer melhor a autora, e o precedente da escrita magnífica de Veneza, puseram-me agora no Kindle Conundrum, um volume de memórias todo dedicado à meia vida que Jan Morris viveu com a convicção de que o seu sexo estava errado em relação ao género a que sentia pertencer, e ao processo que a levou a corrigir esse erro, e que culminou com uma estadia numa clínica em Casablanca. O livro foi pela primeira vez publicado em 1974, e esta reedição apenas actualiza com um novo prefácio da autora.

A escrita é excelente. O inglês de Morris (eu tinha lido Veneza numa tradução) é exuberante, a riqueza do vocabulário põe-nos praticamente a aprender o idioma, a sintaxe é sofisticada mas de uma simplicidade quase musical. O livro organiza-se em capítulos curtos, em que o tom, embora variando entre as memórias mais reflexivas e o relato mais factual, é sempre elegante e muito divertido, aliando uma certa maneira afluente de ser inglês a uma visão da vida por parte de quem já lhe conheceu os recantos mais secretos e extravagantes.

A visão de Jan Morris é de alguma forma datada, sobretudo no modo como se limita pelos estereótipos dos géneros, e como esses estereótipos informam o seu percurso pela transversalidade dos sexos. Mas é importante lembrar que este livro tem quarenta anos, e desde a altura em que foi escrito, o modo como olhamos os géneros e como ultrapassámos a dicotomia mais simplista masculino-feminino, constitui provavelmente a maior revolução do nosso tempo. Assim, não será muito razoável acusar Morris de uma visão pré-revolucionária, quando, de certo modo, teremos que lhe agradecer o ter estado, ela como muitos outros, na génese dessa revolução.

Conundrum em inglês quer dizer enigma. O fio condutor deste livro tão breve quanto admirável, tão profundo quanto divertido, e tão intenso quanto ligeiro, é não tanto a procura de reposta para o enigma, mas sobretudo o processo de aprendizagem de como viver com ele.