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adriano moreira, 90 anos
rosas
innersmile
Vi ontem à noite na RTP uma entrevista ao Professor Adriano Moreira, por ocasião do seu 90º aniversário. Apesar da fraca qualidade da entrevistadora, que acha que mostrar respeito é pôr um ar de boi deleitado, e tem aquele hábito tão em voga nos entrevistadores televisivos de fazer perguntas e não ouvir as respostas, a imensa sabedoria do entrevistado compensou largamente.

Adriano Moreira é um 'sage', e só temos a aprender com ele, tudo. E como todos os sábios, pratica a humildade, a mais elegante e inteligente das virtudes. E essa humildade, que não se confunde com modéstia, sendo muitas vezes inclusivamente o seu oposto, é a primeira coisa que pudemos aprender na entrevista de ontem. Um exemplo? Quando se referiu ao corte de relações com Marcelo Caetano, Adriano Moreira não foi modesto nas razões que acha que lhe assistiam para se recusar cumprimentar o antigo professor de direito; mas foi humilde quando referiu que não o devia ter feito.

A entrevista começou com uma apreciação do estado da nação (que não é famoso e Adriano Moreira manifestou a sua preocupação) e depois correu a vida do entrevistado, que é demasiado rica para caber no exíguo tempo do programa, e é pena, porque em muitas ocasiões gostaríamos de ter ouvido mais, com maior profundidade e largura, a lição do Professor sobre os acontecimentos que viveu, sobretudo os relacionados com os últimos anos do Estado Novo e as colónias, e com o seu regresso à política activa nos anos 80.

É realmente no tocante à política colonial do regime deposto em 25 de Abril de 74 que o testemunho de Adriano Moreira é imprescindível, e a sua opinião de uma clareza iluminadora. Retive a afirmação essencial (não cito, por isso posso não ser muito rigoroso na referência, mas escrevo de memória) de que o princípio defendido pelo governo português de então do Portugal uno, já de si em contradição com os próprios ensinamentos académicos de Marcello Caetano de que as colónias eram filhos, que se separam, esse princípio, dizia, servia a população europeia residente nas colónias, mas não se aplicava à população nativa.

Só mais uma nota para referir que a edição de ontem do Público trazia um comovente artigo de Isabel Moreira, deputada pelo PS à Assembleia da República e uma das protagonistas da luta pela consagração legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo, evocando precisamente a figura de seu pai, no dia do seu 90º aniversário.
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