September 6th, 2012

rosas

a banda

Eu lembro-me de estar no jardim da casa da minha avó, na Rua Gomes Freire número 2074, em Lourenço Marques, e ouvir A Banda, do Chico Buarque. Não sei se foi ainda antes de ir viver para Nampula, em 1967, ou se terá sido numa das férias que eu ia fazer a LM, com os meus tios e primos, que ficaram a viver nessa casa quando nós fomos para o norte. Mas suponho que deva ter sido mesmo antes de 67, porque essa recordação, muito vaga, e vagamente, se mistura com a do Chico Pipa e a sua lambreta. Aliás, nem sei se neste farrapo de memória eu estava de facto a ouvir a canção, ou se estava com os meus primos, a cantá-la. Seja como for, o ponto é que eu tenho agora 50 anos, e a canção de Francisco Buarque de Hollanda continua a fascinar-me, como se fosse sempre a primeira vez.

Um dia destes encontrei esta versão da Maria Bethânia no YouTube, e comovi-me a ver o clip. Acho que não pode haver coisas muito mais intensas, do que termos todas as emoções que nos provocou uma simples canção popular, gravadas para sempre na nossa memória, desde uma infância tão longínqua que parece ter perdido tempo e lugar.

O clip não pode ser posto aqui, mas o link para o YouTube é o seguinte: http://www.youtube.com/watch?v=UBUurKu5a6g



Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...